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A última viagem de David Bowie

Luiz Henrique Oliveira1643 views
Créditos: Ravenval

David Bowie, um dos revolucionários da música do nosso tempo, está morto.

Esta é uma notícia que ninguém que realmente se importa com a arte da música gostaria de receber. Mas foi assim que acordamos nesse dia 11 de janeiro, com a polvorosa da internet lamentando a perda de um dos últimos desbravadores, o homem que serviu de inspiração para dezenas, centenas de artistas que foram influenciados por sua genialidade na criação e pela coragem de ser diferente, do começo ao fim.

E foi com a mesma coragem que ele enfrentou dezoito meses de batalha contra um câncer. E deixou esse planeta poucos diás após completar 69 anos.

A perda de Bowie para o cenário musical é irreparável. Seu álbum Blackstar, lançado na última semana, contém toda a aspiração do cantor em ir além, em fazer mais do que o feijão-com-arroz. Com todos os anos de estrada – e considerando seu estado de saúde – ele poderia simplesmente lançar um trabalho dentro de um terreno seguro, uma repetição de estilo e ninguém reclamaria, pois Bowie tinha a enorme capacidade de lançar hits como pode ser comprovado em álbuns hoje clássicos como “Heroes” ou “Let’s Dance”. Mas não. Até o fim, ele quis empurrar as barreiras um pouco mais além, fazendo um disco experimental sem deixar de lado as letras profundas, reflexivas, que marcaram sua carreira. E é claro, o resultado foi sensacional.

Porém, analisar o álbum tendo agora a notícia de sua morte, as coisas passam a fazer mais sentido. A música e o clipe de “Lazarus”, cujo vídeo foi lançado na última sexta-feira, demonstram que a intenção de Bowie era mesmo nos legar seu testamento artístico.

David Bowie era o homem que estava sempre à frente do seu tempo. Quando Ziggy Stardust, uma de suas personas mais conhecidas, surgiu nos anos 60, causou um choque pelo seu visual andrógino, que logo foi superado pela imensa qualidade de suas canções. Desde então, dedicou sua vida a estar na vanguarda, ditando as regras do jogo ao invés de ser um simples escravo do sistema da indústria fonográfica. Não era ele quem tinha que correr atrás das gravadoras – e sim as gravadoras é que tinham que se esforçar para alcança-lo.

Sua carreira como ator também foi bastante elogiada, participando desde clássicos cult (Fome de Viver) até filmes que se encontram hoje no imaginário infantil dos anos 80 (O Labirinto). Entretanto, é na música que ele deu sua contribuição mais importante, criando fãs ao redor do mundo e nunca decepcionando quem esperava dele qualquer obra, no mínimo, ousada. E nenhum outro artista dos anos 60 até agora, de Freddie Mercury a Lady Gaga, pode negar ter bebido da fonte que o chamado “Camaleão” inaugurou, pois sua obra visionária permitiu abrir os caminhos para quem procurava desbravar outras vertentes do pop, do rock, do folk, do jazz, do new romantics… e de todas os estilos que Bowie abordou em sua longa carreira.

E este é seu maior legado. Hoje, a estrutura de carne e osso, a pessoa física David Bowie nos deixa. Mas a obra estará por aí, flutuando pelas rádios, aplicativos de stream e nos CDs, DVDs e LPs gravados por ele em quase cinquenta anos de carreira. Não era nem preciso gostar dele, mas reconhecer e reverenciar seu pioneirismo, pois devemos a David o fato de que hoje muitas músicas possam nos soar naturais – alguém precisava inventá-las.

Major Tom, The Thin White Duke, Ziggy: assim como ele, todos esses e outros personagens encarnados por ele e suas respectivas músicas não morrerão jamais, para a sorte de quem pode acompanhar a carreira de um gigante como David Bowie, que desde a madrugada de hoje, passou a ser eterno. Não que já não o fosse: em seu último suspiro, a respiração deu lugar ao mito. O consolo que temos, como fãs, é que os homens passam, as músicas ficam.

*Ilustração: http://ravenval.deviantart.com

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.