Chester Bennington: o choque, o debate e a saudade • MAZE // MTV Brasil
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Chester Bennington: o choque, o debate e a saudade

Luiz Henrique Oliveira6486 views

Chester Bennington, lendário vocalista do Linkin Park, morreu hoje.

Soa cru e um pouco clichê começar um editorial dessa forma, mas é bom ler e reler a frase que não parece fazer qualquer sentido. Como assim, o Chester morreu? O sujeito, com 41 anos, casado, seis filhos, se enforcou em sua casa, em algum momento entre 19 e 20 de julho, minutos antes do Linkin Park lançar o seu mais novo videoclipe, “Talking to Myself”.

Aquele cara vigoroso, com voz rascante nas letras de grande alcance de uma das bandas mais importantes da História recente, agora não passa disso: história. Não precisava morrer para ter seu nome na linha do tempo da música contemporânea – juntamente com sua banda, já estava com seu lugar garantido. Mas morreu. E não há como mudar isso.

É estranho quando um artista desse calibre tira a própria vida. Há alguns anos, com Robin Williams, e recentemente com o Chris Cornell, o choque do suicídio de uma pessoa pública que influenciou a nossa vida cotidiana durante décadas acaba sendo um momento de consternação e de reflexão: a primeira, por um luto sincero como se fosse alguém próximo, conhecido, um amigo ou vizinho com quem se tinha alguma intimidade; a segunda, por lembrar que nem mesmo a fama traz a paz de espírito para boa parte da classe artística, pois não é preciso muito esforço para conseguir contar com todos os dedos das mãos os atores, atrizes, band-leaders e outros stars da indústria do entretenimento que se afundaram em drogas (lícitas ou não), e que acabaram encontrando um fim trágico – ou na morte repentina ainda jovens, ou no ostracismo da meia-idade.

Chester Bennington havia sido sexualmente abusado por um amigo mais velho, durante a sua adolescência. Esse episódio marcou profundamente a sua vida a partir de então, o que o fez mergulhar em uma vida de álcool e drogas. A música ajudou a libertá-lo desses fantasmas do passado; por outro lado, a fama e as facilidades que ela carrega consigo o empurraram cada vez mais para o abismo, que culminou na corda solitária pendurada em algum canto de sua casa. Isso deve servir para nós como um lembrete mórbido de que a exposição na mídia, o dinheiro e o sucesso não conseguem suprir o vazio de uma alma atormentada, e que a vida aparentemente feliz de astros e estrelas da música, da TV e do cinema pode ser apenas uma simples fachada, para manter as aparências.

Tendo tudo isso em vista, quem acompanha a discografia do Linkin Park sabe que Chester vez ou outra expressava suas dores e sua perspectiva sobre a vida de uma forma bastante agressiva e/ou depressiva. Ligando todos os fatos acima ao triste ocorrido de hoje, versos de canções como “Leave Out All The Rest” passam a fazer muito mais sentido.

Quando minha hora chegar, esqueça os erros que cometi/Ajude-me a deixar pra trás algumas razões que deixem saudades./Não fique ressentida comigo, e quando se sentir vazia/Mantenha-me em sua memória, deixe de fora todo o resto.

A morte de Chester Bennington ajuda a colocar mais uma pedra no túmulo dos grandes artistas que surgiram entre os fins dos anos 90 e os primeiros anos da década de 2000. Aqueles que hoje são jovens adultos – e adolescentes quando o Linkin Park atingia o seu auge com o álbum “Meteora” – acompanharam os mais velhos da época sofrendo com as mortes de gente como Freddie Mercury, Renato Russo ou Cássia Eller na década que havia acabado de terminar, e agora começaram a sentir a amarga sensação de perder seus heróis artísticos quando Chris Cornell resolveu terminar com sua vida, aos 54 anos.

O falecimento do vocalista do Linkin Park leva mais um grande talento, que ainda poderia contribuir muito com sua música, com a sua interpretação intensa e sua grande e inigualável voz. Mas, mais do que isso, sua morte ajuda a escrever as linhas finais de uma época brilhante, que já começa a despertar os mais tristes sentimentos de saudade.

Junto a isso, ainda nos sobra espaço para lembrar que sempre é bom discutir sobre saúde mental. O que infelizmente não nos falta nessa última década são exemplos de que a origem de pensamentos suicidas não são pura banalidade – assim como também não devem ser, de forma alguma, glamourizados. Aquele parente que anda recluso demais, aquele amigo que não sai mais pros rolês, aquele ídolo que não tem a mesma paixão de antes para fazer arte… Muitas podem ser as razões para isso, mas independente de qualquer coisa: não pressione, não julgue, não cobre, não aponte. Para reverter esse quadro, boa parte depende da própria pessoa, mas também cabe a nós uma função muito importante: apoiar, estar perto, ouvir, abraçar… Até mesmo um simples “tô aqui” pode salvar uma vida, sabe?

Porque se mais uma luz se apagar, sempre devemos nos importar.

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Colaboração: João Batista.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.