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Resenha: Marina and the Diamonds se liberta de suas dores em “FROOT”

João Batista2 comments8904 views

Marina and the Diamonds lançou The Family Jewels, seu álbum de estreia, em 2010, mas foi apenas a partir de 2012 com o lançamento de Electra Heart que ela começou a deslanchar no mainstream do ramo fonográfico. Também pudera: o disco contou com um time forte de produtores, incluindo Dr. Luke e Diplo. As letras inspiradas em desilusões amorosas com aspecto drama-queen ecoa até hoje nos ouvidos de muita gente, e era de se esperar de que o sucessor dessa obra prima juvenil fosse deixar muita gente esperando sentada.

Capa de "FROOT" (Atlantic Records, 2014).

E eis que, quase três anos depois, a galesa anuncia em suas redes sociais o FROOT, seu terceiro cd de inéditas. Introduzida pelo lançamento do carro-chefe homônimo do projeto, a divulgação seguiu um caminho reto com a liberação de uma música inédita por mês, e foi com essa essas estratégia que Marina explicou um pouco do que poderíamos esperar do conceito: 12 músicas, 12 frutas, 12 sabores diferentes. Desde então, só restou saber se essa grande salada mista iria agradar ao paladar dos ouvintes…

Os que passaram a conhecer o trabalho de Marina Diamandis a partir da loira com coração na bochecha podem estranhar o novo cd em sua primeira audição, por conta da sua sonoridade se aproximar mais do indie pop The Family Jewels, deixando bastante de lado os batidões sintetizados e radiofônicos do disco dois. Por outro lado, Electra Heart e FROOT trabalham dentro da mesma temática (fim de relacionamentos amorosos), mas seus conceitos são focados em fases distintas: enquanto lá no EH Marina expôs a dor de seu coração partido com um rancor transparente e debochado, em FROOT ela se mostra mais orgulhosa e disposta a desapegar-se de suas dores.

Em termos de coesão (critério que achamos muito importante na hora de avaliar álbum como um todo), FROOT não inicia muito bem. Mas se formos nos basear na análise do parágrafo acima, perceberemos que não haveria música melhor que “Happy” para ser o abre-alas. Serve como um prelúdio par o disco e, ironicamente, ela está longe de ser a canção mais alegre de Marina: fala sobre o momento em que percebemos que a verdadeira felicidade consiste em amar à si próprio, e é embalada por um belíssimo arranjo de piano. Assim como o limão, em “Happy” Marina recita o azedo (porém necessário) processo de sua auto-aceitação. Ainda no contexto introdutório, a faixa-título toma posto e convida o ouvinte para degustar todos os sabores que o disco virá a oferecer. Marina declara que é uma fruta pronta pra ser colhida e que tem muito a oferecer ao longo da “jornada FROOT”, ao som do pop retrô que já conhecemos.

As duas faixas seguintes, a já conhecida “I’m A Ruin” e “Blue”, se conectam em alguns aspectos, pois apresentam uma pessoa desconstruída e ciente de seus defeitos: enquanto em “Ruin” ela joga as cartas na mesa e assume a sua falta de maturidade para um relacionamento (“Não é justo e não é certo te conduzir como se tudo estivesse bem./Eu brinquei com o seu coração, e eu poderia ter te tratado melhor, mas não sou tão esperta.”), na faixa seguinte ela ressurge em uma doce canção que, a princípio, aparenta ser sobre aceitação, mas logo na segunda parte se revela como mais uma forma honesta de Marina falar sobre sua necessidade de satisfazer apenas a si mesma (“Eu não te amo, eu não me importo, só quero ser abraçada quando estiver com medo.”). Aliás, fica a dica para um maravilhosa e açucarada nova música de trabalho! #BlueForSingle

Dando continuidade à temática “bola pra frente”, “Forget” preenche a jornada FROOT com versos rasos, porém determinados que falam sobre se desapegar dos rancores distribuídos num arranjo pop rock com pitadas sintetizadas que fazem da música um ato obrigatório em qualquer show que Marina virá a fazer daqui pra frente – fica a dica pro Lollapalooza! Ah, e alguém mais teve algum déjà vu? Sim, o seu pre-chorus parece bastante com a dramática e já conhecida “Teen Idle”, faixa do Electra Heart.

“Gold” está longe de ser a melhor faixa do álbum, mas nem por isso deixa de ser interessante. Diferente de muita coisa já gravada por Marina, a faixa é um híbrido de reggae com Woodstock que fala sobre desejar algo que não pode ser comprado. E é neste momento em que percebemos que ela é ousada o suficiente para apostar em novas vertentes do seu pop alternativo, seja o seu resultado final agradável ou não.

Já passando de sua metade, FROOT prossegue com suas músicas mais atraentes e Marina assumindo de forma bastante eficiente o seu relevante papel no cenário indie-pop atual. “Can’t Pin Me Down”, a única faixa com selo explicit do cd, tem uma boa melodia, refrão pegajoso e renderia como single fácil assim como a progressiva “Savages”, onde ela reflete em exatos moldes de The Family Jewels que “nós [seres humanos] somos apenas animais que ainda estão aprendendo a rastejar”. Já “Solitaire” é uma balada minimalista que assume a cota deprê do disco enquanto “Better Than That” chega com a intenção de espantar um pouco do bad mood da faixa anterior com uma tensa e interessante letra – seria essa uma “Homewrecker” em terceira pessoa?

Quase chegando em seu fim, FROOT também apresenta “Weeds”, uma das faixas mais aguardadas por conta do seu nome de significado ambíguo. Ao contrário do que muitos esperavam, a música não é nenhum ode ao estilo de vida 4:20. Em “Weeds”, Marina fala através de uma bela metáfora sobre as tentativas de cortar um sentimento que cresce como ervas daninhas dentro dela. Outra perfeita aposta para single!

Para finalizar o disco de forma maestral, temos a já conhecida “Immortal”. Agora, mais do que nunca, o significado da faixa no contexto geral faz completo sentido: depois de uma vasta jornada repleta de diferentes paladares, Marina abre o coração pela última vez revelando sutilmente a sua ambição pessoal de deixar a sua marca no mundo. Em seus segundos finais, ela ainda aproveita para fazer um pedido: “me mantenha viva”.

Este terceiro trabalho de Marina Lambrini Diamandis é colorido. Não colorido no sentido de ser alegre e/ou infantil, mas pelo fato de abordar um mesmo tema de diferentes formas. É compreensível que tenha algumas faixas meia-bomba, tendo em vista que nem todo mundo gosta de todas as frutas existentes no mundo. E é essa é a graça de FROOT: cada pessoa que ouve o disco pode interpretá-lo e degustá-lo da forma que mais lhe agrade. Através de uma divertida analogia, Marina mostra que o fim de uma relação amorosa pode ter várias cores e sabores, e que cabe a cada um decidir qual o gosto que mais lhe convém. Ela também aproveita pra reforçar que ódio e rancor são apenas fases passageiras de um término, e que muito em breve estes sentimentos darão lugar à boas doses de aprendizado e amadurecimento. Afinal de contas, é como dizem: “Se a vida te der limões, faça uma limonada!”

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João Batista
Dono, idealizador e fundador do labirinto. Genioso, carioca que não sabe sambar e amante da cultura pop desde 1991.