Crítica: "Montage of Heck", o emocionante documentário sobre Kurt Cobain • MAZE // MTV Brasil
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Crítica: “Montage of Heck”, o emocionante documentário sobre Kurt Cobain

Sarah Lenievna2 comments2809 views

Ouço Nirvana há muitos anos. Se minha memória serve de alguma coisa, creio que “Smells Like Teen Spirit” tenha sido uma das primeiras músicas de rock – de excelência – que ouvi na vida, lá pelos anos de 2003, 2004, no auge dos meus 11, 12 anos. De primeira, as músicas foram o que mais me chamaram a atenção. Mas foi Kurt Cobain quem despertou um certo fascínio em mim, menos pela beleza e mais pela aura que se formou em torno desta pessoa que, aos 27 anos, decidiu dar fim à própria vida de forma trágica. Mártir do rock? Herói de uma geração? Rótulos à parte, feitos pra vender mais revistas,  só consigo pensar que Kurt era verdadeiro pra caramba. Em tempos de artistas que “preferiam estar mortos” e usam uma suposta melancolia pra se promoverem, ninguém pode acusar o cara de não ter sido fiel às próprias convicções.

Assisti “Montage of Heck“, primeiro documentário à respeito da vida e obra de Kurt Cobain feito com autorização da família, duas vezes seguidas. Em parte, por ter a responsabilidade de escrever sobre, mas, principalmente, pela qualidade do material. Duzentas horas de arquivos inéditos, condensados em excelentes 120 minutos. Uma verdadeira viagem por dentro da intimidade do líder do Nirvana e uma tentativa de entendê-lo melhor, através de inúmeros recortes de momentos variados de sua vida. “Montage of Heck”, na essência, é isso: uma grande colcha de retalhos, feito para fãs.

O título do documentário foi escolhido baseado num musical de mesmo nome, narrado pelo próprio Kurt em 1988, em um gravador. Em tradução livre, poderia significar “Montages dos Pedaços”. Cenas desses episódios gravados em voz pelo músico foram animadas para o filme, tornando-se um pequeno curta dentro de um filme. Episódios de frustração, tentativas de suicídio e ensaios com a guitarra ganharam vida em desenhos e, esteticamente, deixaram o projeto como um todo muito mais sensível. Em uma das narrações, ao fundo toca “Smells Like Teen Spirit” instrumental, só no violino. Ficou simplesmente maravilhoso.

O documentário alterna, todo o tempo, depoimentos de pessoas próximas à Kurt – mãe, pai, irmã, namorada – com fotos de família, vídeos caseiros, shows e versões animadas das páginas de diários e desenhos do músico. Uma dos pontos fortes do projeto é justamente esse: folhas antigas, rabiscos de letras de música, pensamentos, frases repletas de raiva, paixão e dor, ganham vida na tela e traduzem, visualmente, traços da personalidade de Kurt ocultos até então. De lista de compras de equipamentos musicais à frases duras sobre si mesmo, Kurt não parava nunca, sempre escrevendo e desenhando sobre tudo.

I hate myself, and I want to die
(Eu me odeio e quero morrer)

É difícil encarar sem dúvidas depoimentos de familiares à respeito de alguém que não está mais vivo. Jamais poderemos ouvir o outro lado da história para confrontar ambas as declarações e tirar nossas próprias conclusões. Fato é que, aparentemente, todos concordam que Kurt Cobain não estava preparado para a fama. E que ele odiava, com todas as forças, sentir-se humilhado. Ele próprio, em uma entrevista, declarou que nunca quis tornar-se um rockstar. Verdade ou não, era visível o desconforto do vocalista ao dar entrevistas ou responder à pedidos de autógrafos. Parecia um peixe fora d’água. Avesso ao culto às celebridades, só o que importava era a música.

E disse a ele: “É melhor colocar o cinto, porque você não está preparado para isso” – Wendy Elizabeth, mãe de Kurt.

“Montage of Heck”, como não poderia ser diferente, tem como trilha sonora sucessos do Nirvana, entretanto, algumas surpresas aparecem, como um cover de Kurt de “And I Love Her”, dos Beatles. Sucessos do Nevermind são alternados com canções de In Utero, como “Territorial Pissings”,  “Heart Shaped Box”, “Lithium”, “Sad”, “All Apologies” e “Where Did You Sleep Last Night?”. Impecável.

Se “Montage of Heck”, assim como a própria vida de Kurt, pudessem ser divididos em duas partes, estas seriam “pré Courtney Love” e “durante Courtney Love”. O que o senso comum já sabia, é traduzido em imagens na tela: foi o encontro do fogo com a gasolina. O lema “sexo, drogas e rock ‘n’ roll” levados ao pé da letra. Duas pessoas, uma delas fatalmente falida emocionalmente, dispostas a se arruinarem juntas. Mais cúmplice do que propriamente culpada, fato é que Courtney não tentou reverter a situação e apenas contribuiu para agravá-la. Entre mortos e feridos, salvou-se apenas um nessa história.

The finest day I’ve ever had was when tomorrow never came
O dia mais feliz que tive foi quando o amanhã nunca chegou (tradução literal)

Nunca saberemos o porquê da escolha de Kurt em acabar com a própria vida de forma tão abrupta e  ouvir as declarações das pessoas próximas à ele não ajudam a decifrá-lo melhor. Se há uma coisa que possa nos aproximar de sua mente conflituosa e agitada, sem dúvidas, são suas anotações e desenhos deixados para a posteridade. Eles, sim, dão uma pista, ainda que obscura, sobre o que se passava na mente de Kurt. Graças à “Montage of Heck”, elas vieram à tona, em toda sua complexidade, de uma forma que promete ficar para a história.

Se estamos ficando mais populares ou não, não interessa. A música é mais importante” – Kurt Cobain.

Sarah Lenievna
Amante de rock, cinema e futebol.