Editorial: o ano em que a excelência do Oscar criou asas • MAZE // MTV Brasil
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Editorial: o ano em que a excelência do Oscar criou asas

Gustavo Mata1308 views

O ano de 2014 foi um ano medíocre para quase todos os ramos do entretenimento. Houveram poucos lançamentos dignos de atenção no cinema e na música e, entre todos os ramos, a televisão foi o único que saiu ganhando. Os grandes álbuns não eram tão grandes e os bons filmes nem eram tão bons, e a prova disso foram trabalhos medianos sendo condecorados com prêmios que deveriam ser entregues a trabalhos excelentes.

O 87º Oscar, realizado e televisionado no último domingo (22), foi uma cerimônia vergonhosa, a começar pela apresentação forçada e falha de Neil Patrick Harris. Depois de uma verdadeira festa comandada por Ellen Degeneres em 2014, Harris tentou ao máximo entreter o público, mas entre as dezenas de piadas que o ator fez, poucas arrancaram verdadeiros sorrisos. Mas o maior problema não foi esse – quem dera fosse apenas isso – e sim os concorrentes da maior premiação de todas. A sétima arte andou em crise e a própria academia não fez questão de negar isso: 8 filmes concorriam à estatueta de Melhor Filme, uma categoria que poderia ter até 10 concorrentes. Isso significa que, aos olhos da academia, apenas 8 das centenas de filmes que rodaram os cinemas mundiais eram dignos de atenção. Mas estava aí outro grande problema: desses 8 “melhores”, quase nenhum era digno de sequer concorrer ao prêmio.

Birdman, “Boyhood”, O Grande Hotel Budapeste e “Whiplash” eram, talvez, os únicos que mereciam algum tipo de honra. Budapeste era o filme mais doce e divertido dos 4, uma obra absurdamente bem feita e executada com um quê artístico que nenhum dos seus outros concorrentes sequer chegou perto. Mas a vitória parecia um sonho distante, seja por seu lançamento muito tempo antes da premiação (o que acaba influenciando na hora dos votos da academia), seja pela leveza que o filme tinha. “Whiplash”, na minha opinião o melhor de todos os concorrentes à melhor filme, era cru e simples demais para levar o título aos olhos dos votantes. Foi um filme que encantou mais por sua trilha-sonora impecável e atuações brilhantes do que por sua história em si, mas teve seus méritos e, ao meu ver, saiu vitorioso. Um filme regado a jazz selecionado como um dos melhores de 2014 é uma grande vitória.

boyhood posterOs favoritos eram, então, Birdman e “Boyhood”. Havia uma dúvida cruel pairando sobre crítica e público. Boyhood foi o grande marco cinematográfico do ano, uma película que encantou pela sua história simples e uma produção complexa. Foram 12 anos da vida de um garoto compactados em 166 minutos que causam um furor no espectador de uma forma que nenhum outro filme jamais fez. Uma obra ousada, que resultou num filme plano, sem grandes ápices ou cenas memoráveis, mas encantador por completo. Não há um ponto alto na história, algo que tenha levado o público à euforia, mas sim momentos singelos que marcaram cada um de uma forma. E muito mais do que simplesmente acompanhar a transformação de uma criança de 6 anos em um adulto de 18 anos, é um filme que retratou de forma sutil o passar do tempo e as mudanças que ocorreram no modo de vida daquela família e de tantas as outras. Mason passa a ser não só “o menino que olhava revistas de lingeries escondido”, mas também um fotógrafo exímio, um skatista e, no final das contas, um universitário. Samantha, a irmã do protagonista, canta Oops!… I Did It Again, hit de 2000 de Britney Spears, e uma hora depois surge com suas mexas coloridas e a atitude rebelde que dominou o cenário adolescente em 2006/07. São essas pequenas coisas que fizeram de “Boyhood” o verdadeiro merecedor do prêmio de Melhor Filme. Mas, por ironia do destino, a academia condecoraria outra película. Justamente aquela que satiriza o próprio mercado do entretenimento.

birdmanAntes de mais nada, queria deixar claro: Birdman é, sim, um filme genial. Não apenas por seu plano sequência muito bem executado por Alejandro González Iñárritu e seu time, mas por seus monólogos de tirar o fôlego e um elenco muito mais do que competente. Michael Keaton, Emma Stone, Edward Norton e Naomi Watts não fizeram do filme um sucesso apenas por seus nomes (como foi o caso de “Caminhos da Floresta”, um filme que fez barulho apenas por seu elenco cheio de estrelas), mas sim pela história sádica, ácida e fantasiosamente real tratando de forma irônica a fama, o estrelato e o cinema. É um filme que critica a própria indústria sob um pretexto de exaltá-la, e cumpre seu papel muito, muito bem. É uma história atípica que segue rumos típicos: agrada o público, mas ainda mais aqueles que se veem ligados com o que retrata, e talvez seja essa a maior explicação para sua vitória no último domingo. Assim como “Chicago” fez em 2002, Birdman glamourizou e escarniou os bastidores do mundo cinematográfico de uma forma satírica e divertida. Mas diferente de Chicago, “Birdman” não mereceu o prêmio. Não por ser ruim, não por ser “inferior”, mas sim por não ter o peso e o efeito que Boyhood tem.

Aliás, esse foi apenas um dos vários erros da academia, que simplesmente ignorou uma série de longas e curtas que fizeram jus a boa recepção que tiveram. A falta de “Garota Exemplar” nas categorias principais, a desconsideração total com o aclamado Sob a Pele – que sequer foi indicado à melhor filme estrangeiro ou teve a perfomance assustadora de Scarlett Johansson colocada entre as melhores – ou a não aparição de “Força Maior”, também fora dos concorrentes a melhor filme estrangeiro, foram apenas alguns dos pequenos e terríveis erros da Academia. Mas, mais uma vez, estamos falando da mesma associação que achou a história do homem-pássaro mais interessante que o retrato primoroso de 12 anos da vida de um garoto.

Dança com Lobos foi o dito melhor filme de 1990, mas é de “Ghost” e “O Poderoso Chefão III” que nos recordamos. Argo foi o escolhido em 2013, mas são “As Aventuras de Pi”, Os Miseráveis e “Amour” que ainda tocam e encantam milhares de pessoas todos os anos. E, assim como essas películas, é de Boyhood que estaremos falando hoje, amanhã e daqui 10 anos. Diferente da “Inesperada Virtude da Ignorância”, a obra de Richard Linklater já é um marco na história do cinema.

Gustavo Mata
Aspirante a escritor e amante da cultura pop, viciado em séries, filmes ruins e Britney Spears.