Resenha: "O Jogo da Imitação" • MAZE
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Resenha: “O Jogo da Imitação”, uma história sobre matemática, ingratidão e genialidade

Sarah Lenievna4 comments106380 views

Se nesse momento eu posso escrever esse texto aqui, eu devo isso à Alan Turing. E se você, da mesma forma, pode lê-lo agora, também deve isso à ele. Em poucas palavras: se eu, você, e milhões de pessoas ao redor do mundo se manifestam diariamente na internet, é graças à esse britânico e à sua “pequena” criação: uma coisa muito complexa chamada algoritmo, base da computação atual.

O Jogo da Imitação (The Imitation Game, no original) conta a história de Alan Turing, matemático, cientista da computação e criador da chamada “Máquina de Turing” – um dispositivo gigantesco, repleto de fios, cabos e bobinas – responsável por decodificar mensagens criptografadas. Com essa máquina, Turing e um grupo de especialistas da época foram capazes de interceptar as mensagens trocadas pelos alemães em plena 2° Guerra Mundial. Com esses códigos em mãos, eles sabiam qual seria o próximo passo dado pelos nazistas, quais cidades ou frotas marítimas seriam bombardeadas, quais eram suas posições e planos. Estima-se que a invenção de Turing tenha reduzido em pelo menos 2 anos a duração da guerra. E salvado milhões de vidas.

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sIRaMdeO filme deixa claro: o trabalho desse grupo – escolhido a dedo pelo governo inglês – era muito, muito difícil. A “Enigma” – máquina alemã responsável por enviar as tais mensagens – codificava todos os caracteres, de forma que apenas quem os recebesse e soubesse o que significavam – ou seja, os alemães – poderia entender a mensagem. Um trabalho hercúleo, impossível de ser feito manualmente, dado as infinitas possibilidades de combinação. Turing percebeu isso rapidamente, começando a trabalhar no projeto de uma máquina que faria todo o trabalho sozinha. Ele só não levou em conta que estava trabalhando com um grupo de pessoas altamente capacitadas – e com egos bem inflados.

Benedict Cumberbatch (Desejo e Reparação, Sherlock) dá vida à Turing de forma magistral. Em um trabalho que vai muito além da caracterização física – um simples corte de cabelo – Benedict representa com muita sensibilidade um ser humano extremamente tímido e frágil, fechado em seu próprio mundo, introspectivo. Arrogante às vezes, mas altamente determinado e prático. E com um propósito, o que é mais importante, algo bem raro nos dias de hoje.

O longa também conta com Keira Knightley no elenco, interpretando de forma competente Joan Clarke, matemática inglesa e única mulher pertencente ao grupo de elite criado pela inteligência britânica, além de Charles Dance (Game of Thrones) no papel de um militar rígido e antipático, líder do grupo.

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O Jogo da Imitação é um tributo à vida de um homem pouco conhecido do grande público, cuja dedicação e trabalho foram menosprezados pelo mesmo governo à que serviu. Humilhado em público  – por ser homossexual assumido – Turing foi obrigado a se submeter à uma castração química, à base de hormônios femininos, e afastado de quaisquer pesquisas científicas. Suicidou-se em 1954, ao ingerir uma maçã com cianureto (uma referência à Branca de Neve, seu conto favorito).

Com uma fotografia em tons frios e caracterizações impecáveis da época, O Jogo da Imitação te leva de volta aos anos 40, e culmina numa cena de celebração muito bonita e delicada, impedindo que um filme que pretende homenagear e retratar a vida de um homem tão nobre e importante, terminasse de forma triste e infeliz, da mesma forma que a vida de Turing acabou.

Sarah Lenievna
Amante de rock, cinema e futebol.
  • leca

    Há um equívoco em seu artigo, a máquina de Turing, não é uma máquina física,material, mas um conceito, um dispositivo teórico. http://www.universitario.com.br/noticias/n.php?i=12480

    • Sarah Lenievna

      Você está certíssima, Leca. Obrigada pela correção. É sempre bom receber comentários construtivos como o seu. Continue acompanhando o MAZE !

    • Sarah Lenievna

      Você está certíssima, Leca. Obrigada pela correção. É sempre bom receber comentários construtivos como o seu. Continue acompanhando o MAZE!

    • Julia Paschoali

      Não quero discordar de sua resposta, sim é um dispositivo teórico, mas no filme é retratado como uma máquina física e como estamos falando de uma resenha e não de história acho que se equivocou foi você.