Em tempos de desconstrução, o desrespeito no meio musical ainda é uma constante • MAZE // MTV Brasil
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Em tempos de desconstrução, o desrespeito no meio musical ainda é uma constante

Lucas Rodrigues6137 views

O preconceito no meio musical não é novidade para ninguém. Desde quando Eminem resolveu soltar suas pérolas machistas e homofóbicas, há uns anos atrás, muitos de seus fãs concordaram e divulgaram como se fosse a coisa mais natural do mundo uma coisa que há muito tempo têm sido combatida por muitos outros artistas como Madonna, Lady Gaga e até mesmo Slipknot. O problema não são nem os artistas – na maioria dos casos, eles não têm culpa sobre a opinião de sua fandom. A questão está mesmo no meio deles, os fãs, que muitas vezes não conseguem controlar suas opiniões desrespeitosas.

Recentemente, uma “polêmica” surgiu quando foi anunciada a banda Metallica na programação do Lollapalooza Brasil de 2017. A questão não foi nem o anúncio dessa atração musical no famoso festival – ela tem seu mérito e muitos anos de carreira vitoriosa que comprovam seu sucesso, mas que para o meu gosto pessoal não agrada tanto assim – mas sim a reação de uma parcela do público que já vem frequentando o evento ao longo das últimas edições. Tudo começou quando esse pessoal passou a estranhar que uma banda de metal fizesse parte do roteiro de um festival mais focado em atrações ao estilo indie/pop. Até aí, tudo bem: é normal que surja desconfiança do público cativo quando um novo estilo musical “invade” o “seu” festival.

O real problema se deu quando os fãs de Metallica, ao lerem as reações nos comentários em redes sociais, passaram a ofender aqueles que estranhavam a presença da banda na programação. E com isso, muitas reações machistas e até homofóbicas – fazendo questão de lembrar até mesmo do famoso caso da “lampadada”, acontecido em São Paulo contra um grupo de homossexuais há alguns anos.

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Como fã de metal desde meus dez anos de idade, e também sendo homossexual, vejo que é possível os dois “mundos” conviverem juntos e unidos. Não existe nada, nenhuma lei não-escrita que impeça um gay de ouvir metal, ou vice-versa. Sou tão fã de Slayer quanto de Lana del Rey. Dito isso, e considerando que o festival Lollapalooza apoia abertamente a diversidade, é fácil concluir que a grande maioria dos “fãs” que se manifestaram com ironias e ofensas às minorias estão indo contra a corrente. O próprio Metallica se coloca, em entrevistas, a favor dos movimentos LGBT. Porém, infelizmente, grande parte do fandom de metal ainda acha legal ter atitudes que hoje são até vistas como crime em muitos lugares do mundo.

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Tudo isso vem de muito tempo, quando os metaleiros achavam-se superiores aos outros gêneros musicais. Ainda me lembro de quando muitos amigos que tive nesse meio diziam que qualquer outra música que não fosse a “de macho” era coisa de bicha, e tratavam tudo com agressividade até. Atualmente, com toda a liberdade que veio sendo duramente conquistada pelos LGBT dos anos 80 até aqui, esse cenário é completamente diferente. Mas manifestações como as que vimos nos comentários dessas redes sociais fazem acreditar que muitos ainda pararam no tempo, na época em que era normal e divertido rebaixar quem não compartilha do mesmo gosto.

Para desgosto dessa gente, eles terão de aceitar que vão dividir espaço, não só neste festival mas como em qualquer outro ambiente público no planeta, com todas as outras minorias que antes eles ironizavam. Os avanços dos direitos LGBT são uma derrota permanente para pessoas com esse tipo de pensamento, e a eles o que resta é a imaturidade dos comentários em redes sociais. Chega a ser triste que alguém ainda resuma uma pessoa a partir do seu gosto musical, seja metal ou pop ou funk etc. Isso demonstra uma infantilidade que não se resolve à força – provavelmente, apenas ajuda psiquiátrica pode dar jeito nessa frustração. Enquanto isso, é preciso que aprendam, de uma vez por todas, que o mundo é de todos, e não apenas de um nicho, como eles querem que seja.

Vai ter gay com camiseta do Metallica ouvindo Lana Del Rey? Vai sim.

Lucas Rodrigues
23 anos, tem um gosto musical que varia entre Cradle of Filth e Lady Gaga. Viciado em games, cultura japonesa e admirador do halloween. Seu filme favorito é 2001 - Uma Odisséia no Espaço, mas tem interesse em coisas um tanto quanto góticas, como A Bruxa e filmes de terror em geral.