ESTREIA NETFLIX | "Sheherazade" mistura gêneros e se transforma em um filme poderoso • MAZE // MTV Brasil
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ESTREIA NETFLIX | “Sheherazade” mistura gêneros e se transforma em um filme poderoso

Luiz Henrique Oliveira1277 views

Zachary, 17 anos, é libertado da prisão. Rejeitado pela sua mãe, ele vive nas ruas e guetos dos bairros de Marselha. Um dia ele conhece Sheherazade e sua vida muda completamente.

Essa é a trama de Sheherazade, um filme francês que concorreu em vários festivais europeus e agora chega aqui pela Netflix. E o que a gente pode dizer aqui é que  insólita história desses dois adolescentes permanece na cabeça por muito tempo. É forte, e por isso mesmo é que é muito bom.

Caso não queira ler a crítica, mas possa ver e ouvir, clique no vídeo abaixo:

Então, é bom falar logo de começo que o filme é basicamente nos mostra as condições em que imigrantes vivem na França. Esse é um assunto bastante discutido tanto lá quanto em vários lugares do mundo, pois a imigração desenfreada é vista pelos governos como algo ruim. Se você ainda tem coragem de assistir aos jornais, deve saber mais ou menos sobre esse assunto.

O filme começa mostrando cenas de arquivo da chegada de imigrantes na região da Marselha. Isso para, logo em seguida, notarmos o choque de ver os guetos e cortiços, quase favelas. Ali é que os descendentes dessas pessoas hoje vivem, em condições miseráveis.

Tudo isso para nos apresentar ao Zachary, que é um adolescente que fala muito bem e tem um carisma inegável. Ele procura pela mãe, que o rejeita, e tem a atenção de uma assistente social que deseja colocá-lo em um novo lar. Por estar preso há quatro meses e sem nenhuma perspectiva, a única coisa que ele deseja é voltar para as ruas. É por isso que ele termina fugindo da condicional em que está: para voltar ao seu bando de amigos arruaceiros.

 

Um filme comovente

Uma série de eventos faz com que ele acabe conhecendo Sheherazade. Ela é uma adolescente de 16 anos pela qual ele se apaixona. Como Zachary precisa ganhar dinheiro, eles fecham uma parceria para que ele possa ser o cafetão dela. Com isso, ele lucra com os programas feitos por ela, ao mesmo tempo em que nota a crescente paixão pela menina. A partir disso, também cresce os ciúmes e a vontade de protegê-la.

A partir daí a gente não pode contar muito, porque há desdobramentos realmente surpreendentes. Essa é uma história que parece morna no começo, mas que vai crescendo em tensão. Chega ao nível de chegar de se tornar insuportável quando já estamos perto do final. O filme tem tons de documentário, mudando o tom para um thriller que depois se transforma em drama. Em todos os gêneros, ele é muito competente. Muito por conta da direção de Jean Bernard Marlin.

 

Interpretações fortes

ESTREIA NETFLIX | "Sheherazade" mistura gêneros e se transforma em um filme poderoso

As interpretações de Dylan Robert, que faz o papel de Zac, e de Kenza Fortas, fazendo Sheherazade, são impressionantes. Ele começa o filme sendo um sujeito de fala fácil e claramente malandro, mesmo que ainda com toques adolescentes. Ela segue a mesma linha, e os dois amadurecem diante de nossos olhos. Principalmente quando o amor floresce entre eles, e as consequências da vida que levam começam a aparecer. É realmente comovente a forma como eles trabalharam esses personagens, dando profundidade e clareza para suas ações.

Como a gente falou lá no começo, essa história de amor serve também para nos situar dentro da questão da imigração em Marselha, onde o filme se passa, e as condições em que essas pessoas vivem dentro dos países aos quais eles não pertencem. É um filme para fazer pensar, e que fica na cabeça depois que a gente termina. É difícil não refletir sobre ele.

Um único porém é sobre a edição. Às vezes ela se torna confusa, principalmente nas transições entre os gêneros que coabitam esse filme. Mas é um problema menor, já que a gente fica hipnotizado de verdade com o que estamos vendo. Isso acaba por salvar a obra como um todo. Sheherazade é um filme que fica na mente.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.