"Hereditário": um guia para entender melhor as referências do filme • MAZE // MTV Brasil
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“Hereditário”: um guia para entender melhor as referências do filme

Luiz Henrique Oliveira1698 views

ATENÇÃO: amigues, se você ainda não viu o filme, é melhor não ler esse texto. Aqui nós vamos explicar algumas referências e teorias que surgem durante o longa, então se você ainda não tiver visto, pode tomar um spoiler bem na sua cara. Se você já tiver visto, continue; se ainda não tiver visto, vá assistir “Hereditário” AGORA e volte aqui depois, ok?

Um bom filme é aquele que fala mais do que mostra. São poucos os que conseguem essa proeza, e o exemplo mais recente é o famoso – para o bem ou para o mal – “mãe!“, dirigido pelo Darren Aronovsky. Dividiu opiniões entre o público e a crítica, mas não se pode negar que suas entrelinhas são interessantes e a verdadeira caça às referências fez o espectador correr atrás de informação. Nós, aqui no MAZE, publicamos um guia para entender esse filme. Baseado nessa experiência, resolvemos fazer a mesma coisa com “Hereditário“.

Porém, não são filmes iguais. Enquanto um aposta no sentido escondido nos personagens e no enredo, outro aposta nos conhecimentos avançados sobre… satanismo.

Em nome do Pai

Podemos apostar que tem muita gente fazendo o sinal da cruz só de ouvir falar da palavra satanismo. Mas “Hereditário” basicamente é sobre isso: uma família que carrega a terrível sina de ser o receptáculo de um poderoso demônio. Toda a história envolvendo a patriarca da família, cuja morte dá início aos eventos angustiantes do filme, se dá porque ela é uma espécie de Jesus às avessas: a responsável por carregar a palavra satânica e por trazer ao convívio humano um dos Nove Reis do Inferno: Paimon.

Muita gente, ao terminar de ver o longa, pode se perguntar: essa história toda de Paimon é real?

A resposta é sim. Paimon é considerado, dentro da cultura satanista, o um dos 72 daemons, ou seja, espíritos do inferno, e cada um deles possui uma habilidade para supostamente ajudar os humanos. Nenhum deles teve forma física, são apenas espíritos que residem no inferno. Mas Paemon é um demônio especial: ele foi coroado como uma divindade. Segundo se diz, ele possui poder e conhecimento inimagináveis, sendo de enorme sabedoria. Sendo um dos Reis do Inferno, ele é conceituado e respeitado, além de ser muito temido.

Paimon é quem ensina todas as artes, ciências, e coisas secretas, revelando todos os mistérios da terra, do vento e da água. Portanto, muito poderoso. Paimon desde sempre é retratado como um homem com um rosto afeminado usando uma coroa emontado num dromedário. No filme, ele é invocado para tomar a forma humana do filho de Anne. que é filha de uma espécie de sacerdotisa da seita que quer que ele venha para a Terra. Porém, o primeiro filho dela nasce como menina. Paemon, segundo os textos satanistas, prefere corpos masculinos, e por isso a garota precisa ser, de certa forma, eliminada para que o demônio possa tomar posse do corpo correto.

Quem prestar atenção na cena anterior a da morte de Charlie, quando ela e o irmão ainda estão indo para a festa e passam de carro em frente ao poste que causará a tragédia, vai perceber que ele contém uma inscrição. Uma espécie de selo. Aparentemente é a mesma inscrição que aparece no livro da matriarca achado em uma caixa e também na parede quando o corpo dela é descoberto no sótão, o que leva a crer que todas essas situações foram pensadas e programadas pela avó e sua seita. Todos os daemons do reino de Satã possuem seu selo. Paimon possui o seu, e que marca os seus seguidores.

Os olhos e a alma

“Hereditário” também dá muita ênfase a closes fechados quase nos olhos dos personagens principais. Uma interpretação para isso está na famosa frase “os olhos são a janela da alma”. Em determinado momento, o espírito de Charlie desenha em seu caderno de anotações a representação de seu irmão, mas com os olhos marcados com X. O que isso pode querer dizer?

A interpretação que temos é que todas aquelas pessoas estão com as almas expostas aos demônios invocados e que são tradicionais naquela família. Tanto Charlie – o primeiro receptáculo de Paimon – quanto Anne e Peter possuem olhos expressivos e eles são frequentemente mostrados na tela. Já Steve, o pai das crianças e marido de Anne, não tem seus olhos mostrados da mesma forma, pois como ele é claramente cético e não acredita nessas questões, tem seu “corpo fechado” para essas coisas. Preste atenção na forma como os olhos são mostrados no filme, pois isso pode ser relevante para entender por que aquela família está tão envolvida e tão suscetível à seita liderada pela avó.

Além disso, uma cena que passa despercebida em seu significado é a questão da cabeça. Logo no começo do filme, Charlie arranca a cabeça de uma pomba morta com uma tesoura, e faz um desenho onde o animal possui uma coroa. Pouco tempo depois morre em um acidente onde sua cabeça é arrancada. E, no fim do filme, a cabeça da avó é colocada em uma espécie de réplica adorada pelos membros da seita, enquanto Peter, depois de ter o espírito de Paimon entrado em seu corpo, é coroado como rei. O espírito enxerga através de sua janela, ou seja, os olhos. Como Charlie e a avó tinham relações com Paimon, a forma com que ele poderia ver o mundo real é através dos olhos de seus receptáculos. Começou com a matriarca, passou para a neta e finalmente, ao fim do filme, passa para o neto.

“Hereditário” é um filme para gente grande

Este não é um filme para corações fracos, e nem para pessoas desatentas. Os pequenos detalhes (as inscrições nas paredes da casa, o selo de Paimon surgindo no livro e no poste, entre outras pequenas coisas) dão o tom de um dos melhores filmes de terror dos últimos tempos. É preciso entrar no clima do longa e embarcar no declínio ao inferno – quase literalmente falando – dessa família aparentemente normal.

Muitas pessoas podem não ter entendido a proposta do filme, e por isso podem rejeitá-lo. Mas acreditamos que é preciso ver o filme mais de uma vez para pegar seus detalhes, e estar no ambiente certo para assisti-lo: um lugar silencioso, de preferência de luz apagada, para que a atenção esteja apenas no que está passando na tela. Não há dúvidas que, se visto da forma mais adequada, fica mais fácil assistir ao longa e sentir o horror do mal passando diante dos seus olhos.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.