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RESENHA | “O Pintassilgo” tem beleza estética e ótimas atuações, mas é vazio

Luiz Henrique Oliveira3104 views
RESENHA | "O Pintassilgo" tem beleza estética e ótimas atuações, mas é vazio

“O Pintassilgo” precisa ser explicado com uma analogia. Imagine que você está andando pela rua e encontra um amigo de longa data. Você para, o cumprimenta. Ele anda bem vestido, em ternos bem cortados. Tem uma ótima aparência. Ele para e vocês começam a conversar. Você faz a pergunta clássica: “E as novidades?”. O amigo, então, começa a contar sua história de vida edificante, mas com uma cara de quem só quer saber de dormir e mais nada.

Essa comparação serve perfeitamente para o filme, dirigido por John Crowley e baseado no livro de Donna Tartt, e que venceu o Pulitzer. A adaptação para a tela é muito bonita, elegante, com estética impecável. No entanto, é vazio de sentimentos.

Veja a crítica em vídeo:

 

A trama de “O Pintassilgo” começa quando Theo, um menino de 13 anos, está no Metropolitan Museum of Art, acompanhado de sua mãe. De repente, um atentado à bomba atinge o lugar. A mãe de Theo e outras dezenas de pessoas morrem, mas ele sobrevive. Desse momento em diante, a vida dele muda: vai morar com a família abastada de um amigo de escola, depois com o pai alcoólatra. Em cada momento, ele tenta preencher o vazio da falta da mãe. Além disso, ele esconde um segredo: no dia do atentado, ele pegou dos escombros do museu um pequeno quadro de um artista holandês do século XVII, e o guarda consigo.

Dessa forma, durante duas horas e meia, acompanhamos a trajetória de Theo, de sua adolescência até sua jovem vida adulta, quando se torna um sujeito quebrado emocionalmente. No entanto, a história não é apenas sobre ele, mas também sobre o quadro que ele pegou do museu, que serve como representação da falta que a mãe do rapaz faz em sua vida.

Logo de cara, o que chama a atenção em “O Pintassilgo” é a qualidade das atuações. O diretor Crowley, conhecido no teatro inglês e indicado ao Oscar por “Brooklyn”, consegue extrair interpretações belíssimas do elenco. Nicole Kidman, Sarah Paulson, Jeffrey Wright, Finn Wolfhard e Luke Wilson, se destacam em papéis pequenos, que no entanto chamam muito a atenção pelo quilate dos atores. Por outro lado, Oakes Fegley e Ansel Elgort, que interpretam Theo nas fases adolescente e adulta são os grandes nomes do filme. Eles conseguem dar a profundidade necessária para o personagem, que sempre se mostra melancólico mesmo nos momentos de maior alegria.

 

“O Pintassilgo” desperdiça talentos

RESENHA | "O Pintassilgo" tem beleza estética e ótimas atuações, mas é vazio

“O Pintassilgo”, no entanto, desperdiça todos esses talentos com um roteiro pedestre, para dizer o mínimo. A impressão que se passa é que o roteirista Peter Straughan pegou um “melhores momentos” do livro de quase 800 páginas e colou no filme, sem qualquer profundidade. Esse trabalho ficou concentrado no personagem principal, Theo, e ignorou todos os coadjuvantes que também precisavam ser melhor trabalhados neste aspecto.

Mesmo com uma equipe técnica de primeira, capitaneada pelo lendário diretor de fotografia Roger Deakins, “O Pintassilgo” não consegue se sustentar por conta da falta de emoção. São duas horas e meia de beleza estética, mas de vazio emocional. Tudo por conta da decisão do roteirista de deixar várias passagens do livro de fora – trechos que explicariam certas atitudes e sentimentos dos personagens. Com isso, não nos importamos com os destinos de qualquer um deles. Quando “O Pintassilgo” acaba, tudo é esquecido dez minutos depois de sair do cinema.

Por fim, é de se lamentar as escolhas narrativas do filme. Dessa forma, uma história com grande potencial acaba desperdiçado. Ainda que com belas atuações e visual elegante, “O Pintassilgo” se torna um tanto quanto chato já em sua metade. Assim, o resultado final fica comprometido. Um cuidado maior no roteiro tornaria “O Pintassilgo” um dos principais competidores na temporada de prêmios do fim de ano. Isso, infelizmente, não acontecerá.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.