"Os Oito Odiados": a coletiva de Quentin Tarantino em cinco capítulos • MAZE // MTV Brasil
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“Os Oito Odiados”: a coletiva de Quentin Tarantino em cinco capítulos

Luiz Henrique Oliveira1194 views

No último dia 23 de novembro, Quentin Tarantino desembarcou no Brasil acompanhado do ator Tim Roth  para divulgar seu novo filme, Os Oito Odiados, que estreará no dia 7 de janeiro aqui no Brasil. Nós assistimos ao filme e publicamos a nossa resenha aqui, e em seguida acompanhamos a entrevista coletiva do diretor realizada no hotel Grand Hyatt, em São Paulo. Para entrar no clima das produções de Tarantino, vamos dividir este post em cinco capítulos – assim como a maioria dos filmes dirigidos por ele.

 

Capítulo I – A chegada triunfal

Tarantino chegou ao auditório do hotel acompanhado de Tim Roth e de Marcos Oliveira, presidente da Diamond Films do Brasil. Passava um pouco das 14h, horário marcado para o início do bate-papo, quando os três entraram no palco preparado para recebê-los. Depois da ovação dos jornalistas presentes – afinal, eram Tarantino e Roth, dois grandes nomes do cinema mundial – o diretor acomodou-se ao lado de um tradutor, que repassaria as perguntas em português feitas pelo pessoal da platéia. Dessa maneira, ele começou a falar. E fala muito, o Tarantino. Explicou o quanto estava feliz em voltar ao Brasil, para onde não vinha desde a divulgação de seu primeiro filme, e ressaltou que o país era o primeiro fora dos Estados Unidos a ver o filme, que foi exibido em sua versão ainda não finalizada (ou seja, o que vimos foi o material bruto de mais de três horas de duração). Marcos Oliveira informou que “Os Oito Odiados” não será exibido aqui no formato idealizado por Tarantino, em 70mm, por não haver cinemas com capacidade para essa apresentação. Não tem problema. Simpático, atencioso e falastrão, ele quase não deixava Roth falar, o que gerava um efeito cômico não intencional.

 

Capítulo II – O fim da carreira

Tarantino foi questionado sobre a lenda de que encerraria a sua carreira no décimo filme. Com um sorriso no rosto que em nada parecia ser irônico, ele emendou:

— “Os oito odiados” é meu oitavo filme. O próximo será o nono e o seguinte será o último. Tenho um sentido mitológico com relação a mim e à minha carreira.

As pessoas comentavam baixinho, quase sem acreditar: ele confirmou que vai mesmo encerrar sua carreira de diretor no décimo filme. Como ali a maioria dos jornalistas não eram só profissionais mas também fãs do cara, deu pra perceber uma certa tristeza com essa declaração. Mas ele afirmou, logo em seguida, que após seu décimo filme irá se dedicar a produção. Não ficaremos sem Tarantino. Ufa.

 

Capítulo III – Como pedir autógrafos no meio da entrevista

Tim Roth comentou sobre as diferenças de seus personagens em “Pulp Fiction” e “Cães de Aluguel” com o que interpreta em “Os Oito Odiados” e sua relação com Tarantino desde 1992, o que gerou uma resposta engraçada do diretor:

— Em Cães de Aluguel, eu nunca tinha estado num set de filmagem antes, porque não fui subindo na carreira aos poucos. Mas Tim sabia o que estava fazendo, ele já tinha estado em vários sets de filmagem. Aquele foi meu primeiro filme, e o Tim me dizia: ‘Não deixe aquele técnico passar a perna em você, ele está te trapaceando e você nem percebe!’. Pulp Fiction foi meu segundo filme com Tim, e nesse momento ele passou a me dizer: ‘Está vendo? É assim que se faz!’.

Tudo corria bem, dentro dos conformes, até que um blogueiro questionou Tarantino sobre a temática de seus filmes: em Kill Bill, ele havia empoderado as mulheres; em “Django Livre” e “Os Oito Odiados”, ele empoderou os negros; nessa lógica, ele teria pensado em fazer um filme empoderando os gays? Aplausos gerais e risos do pessoal da mesa. Bem humorado, Tarantino respondeu que até aquele momento não havia pensado naquilo, mas já era uma ideia para um de seus filmes restantes. Quem sabe?

Mas antes que se passasse para a próxima pergunta, veio a surpresa: esse mesmo blogueiro interrompeu e pediu um autógrafo para Tarantino. O diretor ficou sem jeito, disse que veria isso depois e a entrevista continuou – mas não se pode negar o clima constrangedor na sala. Mas aquela entrevista ainda renderia momentos mais fortes…

 

Capítulo IV – Os sonhos de Tarantino

Perguntado se ainda haviam atores com os quais gostaria de trabalhar e ainda não conseguiu, Tarantino foi sincero e didático. Depois de ouvir a pergunta, fez uma pausa para respirar, pensou um pouco e disse:

—  Existem muitos atores excelentes por aí, mas nem todos eles conseguem falar meus diálogos. Meus diálogos não são para qualquer um, é preciso ter uma voz, um porte, além de senso de humor. Por isso, tentei pegar alguns atores com quem gostaria de trabalhar de novo, misturando-os com outros que poderiam lidar com essas falas. Eu os chamo de ‘Superstars do Tarantino’.

Roth, que estava sem interagir muito na entrevista, completou a resposta do diretor:

Os diálogos de Quentin são muito musicais, e todos nós temos que ser capazes de chegar a esse tom. Quando fazemos leituras, é preciso transformá-los em algo fluido. É uma escrita única, e ele fazia várias tomadas até chegar naquele momento mágico. Acho que conseguimos captar isso em algumas cenas.

Provocado em dizer os nomes dos atores com quem gostaria de trabalhar, finalmente ele cedeu:

Eu adoraria trabalhar com Johnny Depp, mas para o personagem correto. E também com Kate Winslet, acho que ela interpretaria muito bem os meus diálogos.

Capítulo V – Apenas um odiado

Já no fim da entrevista, uma jornalista retornou a uma questão que ele já tinha respondido de forma seca alguns minutos antes: apesar das rixas existentes com Spike Lee, que remontam desde o lançamento de “Jackie Brown” no meio dos anos 90, havia alguma chance de Tarantino trabalhar com ele? A resposta, então, veio taxativa:

Nunca.

Ao ser questionado novamente, e de forma mais agressiva (“Você que faz filmes sobre racismo se recusa a trabalhar com um diretor negro?”), Tarantino fechou o rosto, segurou o microfone e respondeu no mesmo tom:

Tenho mais dois filmes para dirigir e não vou gastar algum deles com esse filho da puta. Ele ficaria muito feliz no dia em que eu aceitar trabalhar com ele, seria o dia mais feliz da vida dele. Mas isso não vai acontecer.

Mesmo com a surpresa que causou com sua fala enfática, ele se levantou e a entrevista foi encerrada. Debaixo de toneladas de aplausos, ele agradeceu a todos e posou para fotos por alguns minutos antes de sair por uma porta lateral, acompanhado de Roth e de Oliveira. Depois de uma hora e meia de papo, que pareciam ter durado apenas alguns minutos tamanha a diversão e espontaneidade das respostas, o trio deixou o auditório – e também deixou a certeza, para todos os presentes, que o jeito expansivo e meio louco que vemos em outras entrevistas e nas telas não é um golpe de marketing: Quentin Tarantino é mesmo desse jeito.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.