Resenha | "Animais Fantásticos e Onde Habitam" • MAZE // MTV Brasil
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Resenha | “Animais Fantásticos e Onde Habitam”

Luiz Henrique Oliveira1827 views

É meu dever utilizar esse espaço aqui no MAZE para informar a vocês que:

Animais Fantásticos e Onde Habitam” não é “Harry Potter”.

Eu sei, muita gente pode se sentir triste e decepcionada com essa informação. Apesar de toda a campanha de divulgação que lembrava a todo momento que o filme faz parte do universo mágico criado por J.K Rowling durante a década de 90 (e que ganhou as telas nos anos 00), tudo que a saga de Potter contra Voldemort tem em comum com essa nova produção é exatamente isso: ambos compartilham o mesmo espaço temporal. Mas nada poderia ser tão diferente da saga “potteriana” do que Animais Fantásticos e Onde Habitam.

Duas sagas totalmente distintas

A começar pela temática: a história, passada nos anos 20 em Nova York, é bem mais pesada, adulta. Evidente que, por se tratar de um roteiro concebido pela própria Rowling — em sua primeira tentativa nessa função — as coisas tendem a ficar mais leves depois de um tempo, com gracinhas, piadinhas e um óbvio fundo moral para as atitudes de quase todos os personagens. Tudo é alegoria: há espaço para falar sobre preconceito, causas ambientais, entre outras tantas coisas. São as causas certas, não há dúvida, mas em determinado o excesso de subtextos pode cansar.

animais-fantasticos-e-onde-habitam-poster-maze-blogE é bom ressaltar que eu disse que “pode” cansar; se você for alguém que sabe abstrair essas coisas (eu não, infelizmente), o espetáculo está garantido. O design de produção é incrível, um trabalho executado com tanta maestria que deixa de queixo caído, principalmente quando as criaturas em efeitos digitais interagem com o cenário, deixando tudo com uma beleza singular. Nada parece fora do lugar, e Animais Fantásticos já desponta na corrida aos prêmios técnicos do ano que vem. David Yates (o mesmo diretor dos quatro últimos filmes de Potter, portanto conhecedor desse universo) se redime do fracasso total que foi A Lenda de Tarzan e volta a entregar uma direção segura e em muitos momentos inventiva. É uma pena que ele não seja reconhecido como o bom diretor de cinemão blockbuster que é.

O grande ponto fraco

O ponto fraco, para variar, está em Eddie Redmayne. Sua interpretação de Newt Scamander é basicamente A MESMA que ele entregou em filmes tão distintos como A Teoria de Tudo (que lhe deu um Oscar) ou A Garota Dinamarquesa (que lhe rendeu outra indicação). Seus maneirismos são fáceis de reconhecer: voz baixa, olhar sempre perdido, um ar de cachorro que caiu da mudança.

Para quem o enxerga como Scamander, pode dizer que ele “entrou no personagem”. Mas quem conhece seus trabalhos anteriores só percebe que ele faz e refaz o mesmo papel, com mais ou menos intensidade. Diferentemente de atores como Colin Farrell ou Ezra Miller, que engolem quem está em volta e roubam quase todas as cenas em que aparecem; também entregam boas caracterizações os veteranos Jon Voight Samantha Morton, e o destaque real está com Dan Fogler no papel de Jacob Kowalski – “trouxa” que se vê envolvido na trama por acidente e tem as melhores sacadas de humor do filme todo.

(E nem vou comentar sobre Gellert Grinewald, que não vou contar que é interpretado pelo Johnny Depp e nem direi que já aparece neste filme e terá papel crucial durante toda a trama, prevista para mais quatro longas. Não vou falar nada disso, juro.)

Nada será como antes

Com tudo isso, é possível ter a certeza de que Animais Fantásticos e Onde Habitam terá longa e vigorosa vida no cinema, e está com tudo para ocupar, no coração dos fãs, o lugar vago que Harry, Hermione, Rony e companhia bela deixaram há alguns anos. Acredito que a intenção de Rowling, ao escrever e produzir essa nova leva de filmes baseados no mundo mágico que ela concebeu, é levar aqueles que devoraram os oito filmes de Potter lançados ao longo da década passada para a “vida adulta”. A trama mais séria e sombria, onde praticamente só há adultos, demonstra que ela quer dar aos seguidores de seu personagem mais famoso uma nova faceta, mais de acordo com a idade que a esmagadora maioria deles possui agora. Evidente que Harry Potter fez e continuará fazendo parte da vida de toda essa gente, mas agora a intenção é criar um novo ponto de partida.

Parabéns aos envolvidos, pois conseguiram. Animais Fantásticos não é Harry Potter — e isso é ótimo. De agora em diante, nada será como antes.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.