Resenha: "A Garota Dinamarquesa" • MAZE
FilmesPostsResenhas

Resenha: com atuações brilhantes, a transexualidade é pauta de “A Garota Dinamarquesa”

Gustavo Mata40652 views

Falar em transexualidade em 2016 é difícil. Identidade de gênero é um assunto complexo demais em uma  sociedade que matou mais de  600 transexuais nos últimos 6 anos. Porém, cada vez mais, a transfobia, a transexualidade, a travestilidade tornam-se pauta de discussões acerca de direitos civis, sociais e afins. Aos poucos, muitas vitórias se conseguem: universidades passam a reconhecer os nomes sociais de seus alunos, o sistema público de saúde garante a cirurgia de mudança de sexo àqueles que querem fazê-la e, num momento histórico para a televisão, uma artista transexual é indicada ao Emmy, o prêmio mais importante do ramo. Mas abordar o assunto no início do século passado era ainda mais difícil e, além de haver 0 menções a essas questões na sociedade em geral, pouco se sabia sobre o assunto, incluindo a citada cirurgia de readequação sexual. Porém, a dinamarquesa Lili Elbe tornou-se um grande nome por ter sido uma das primeiras transexuais operadas de quem se tem registro.

Net Tv

A garota dinamarquesa alicia vikander eddie redmayneAdaptação cinematográfica do livro de mesmo nome, A Garota Dinamarquesa narra a história de LIli e sua descoberta, aceitação e transição como uma mulher transexual. Einar Wegener – identidade de batismo da moça – era um notório pintor dinamarquês que fez certa fama pela Europa durante a década de 1910 e era casado com a bela e também artista Gerda Gottlieb, sua parceira por toda a vida. A identificação de Einar como mulher começou quando sua esposa, precisando finalizar um quadro, pediu ao marido que vestisse as meias e os sapatos da modelo, que não compareceria no dia em questão. Foi esse o momento chave em que Einar percebeu que não era Einar, e sim, outra pessoa, e começou então a se vestir como mulher e adotar o nome de Lili para, anos depois, submeter-se a uma série de cirurgias que a tornariam, em suas própria palavras, “mulher por completo”.

Protagonizado por Eddie Redmayne e Alicia Vikander, o filme foi dirigido pelo premiado Tom Hopper, que já levou um Oscar para casa com o “O Discurso do Rei” e fez deste um trabalho tendencioso, mas ainda satisfatório. Prendendo-se mais a história narrada por David Ebershoff no livro homônimo do que a história relatada nos vários artigos sobre a trajetória de Lili, Hopper nos transportou muito que bem para a Copenhague de 1920, atentando-se a pequenos detalhes da época e utilizando os mais diversos recursos que tornassem a narrativa mais real, seja com o uso de uma fotografia mais gélida – transparecendo não só o frio europeu, como também a melancolia da história –, seja a atenção dada a caracterização dos personagens e locais. Não é o trabalho mais marcante da carreira do diretor, mas mostra que quando trata-se de adaptações biográficas, Tom tem talento mais que o suficiente.

Por outro lado, é inegável que a grande pérola do filme é o time de atores, em especial a dupla de protagonistas, ambos indicados ao Oscar deste ano. Eddie Redmayne, que venceu o prêmio de Melhor ator no Oscar de 2015 por “A Teoria de Tudo”, entrega mais uma vez uma atuação plausível. Em meio as críticas pela escolha de um ator não-trans (cis) para o papel principal, o inglês entrega um dos seus trabalhos mais admiráveis. Introspectivo quando precisou ser, feminino ao extremo quando necessário e absurdamente dedicado ao trabalho (chegou até a emagrecer para o papel), Ed mostra-se um dos atores mais admiráveis de sua leva e, ainda que não leve o prêmio de melhor ator no Oscar, pode sentir-se orgulhoso ao extremo com seu trabalho. Não seria surpresa vê-lo subindo ao palco da premiação mais uma vez, não necessariamente esse ano.

Mas a estrela máxima do filme é, sem dúvidas, Alicia Vikander. A atriz, já admirada em 2015 pelo papel da criatura robótica Ava em Ex Machina, interpreta com muito calor Gerda, e ofusca até mesmo as transformações de Eddie nas cenas (diversas) que divide com o ator. Ela chora, ri, sensibiliza-se com a luta de Lili e, em meio a todos os seus problemas pessoais, coloca seu amor em primeiro lugar, e se não fosse o trabalho mais do que excepcional de Alicia, toda essa emoção que torna o filme tão intenso não teria sido o suficiente para torná-lo memorável. As chances da moça levar o careca dourado de melhor atriz coadjuvante podem não ser das mais altas, mas a sueca mostra-se merecedora do prêmio e de muito mais atenção por parte de Hollywood. Atuar um filme de Tom Hopper com Eddie Redmayne protagonizando uma transexual e conseguir colocar-se a frente disto é feito mais que admirável para uma artista de apenas 27 anos.

A garota dinamarquesa eddie redmayne alicia vikanderAinda assim, o filme tem lá seus problemas, principalmente no roteiro. A história, contada basicamente sob a perspectiva de Gerda, é romantizada demais e escorrega em alguns momentos por mostrar uma versão bem “enxuta” de uma história nitidamente complexa e cheia de reviravoltas. Chega a ser, em alguns momentos, previsível e cansativa, principalmente no final, ao prolongar-se demais nas cirurgias de Lili. Porém, ainda que de forma “Hollywoodiana” demais, é interessante e gratificante ver um time de roteiristas empenhados em levar uma história dessas para as telonas, principalmente depois de anos e anos estudando e trabalhando o projeto.

Mas esses problemas não diminuem a beleza que há em A Garota Dinamarquesa. Entre os figurinos belíssimos e a maquiagem impecável, há dois atores jovens e talentosos que fazem do filme uma bela pedida não só para os admiradores da sétima arte, como também os interessados na vida de uma das mais intrigantes figuras transexuais que se tem registro. Entre transformações, chororôs e muito glamour, Lili Elbe tem sua história contada de uma forma admirável e o filme se mostra mais um importante marco na visibilidade dos transexuais por todo o mundo. De Lili Elbe a Laverne Cox, Caitlyn Jenner, Rogéria e Nany People, da Dinamarca aos Estados Unidos e ao Brasil, é um filme que deve ser assistido, apreciado e admirado. A Garota Dinamarquesa narra a vida não só de uma figura emblemática, mas de certa forma, a ainda dura realidade das milhares de pessoas que passam por inúmeros problemas todos os dias por serem simplesmente quem são. Ela é Dinamarquesa, mas também brasileira e global e o filme, ainda que não tenha sido o principal intuito dos produtores, nos faz refletir um pouco sobre essa dura realidade.

A Garota Dinamarquesa chega aos cinemas brasileiros no dia 11 de fevereiro.

Gustavo Mata
Aspirante a escritor e amante da cultura pop, viciado em séries, filmes ruins e Britney Spears.