RESENHA | "Era Uma Vez em Hollywood" traz o melhor e o pior da filmografia de Tarantino • MAZE // MTV Brasil
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RESENHA | “Era Uma Vez em Hollywood” traz o melhor e o pior da filmografia de Tarantino

Luiz Henrique Oliveira5211 views
RESENHA | "Era Uma Vez em Hollywood" traz o melhor e o pior da filmografia de Tarantino

“Era Uma Vez Em… Hollywood” é o nono filme da carreira de Quentin Tarantino, em uma prometida sequência de apenas dez longas-metragens. É muito pouco para um gênio com a capacidade criativa do diretor e roteirista. Mas, talvez, seja a quantidade ideal, a julgar pelo resultado de seu novo trabalho.

Desde “Django Livre”, Tarantino vem sofrendo de um sério problema na edição de seus filmes. Sally Menke, sua fiel escudeira e montadora de seus longas, morreu repentinamente em 2010. A partir daí, sem a pessoa que mais entendia seu cinema, o diretor ficou um tanto quanto perdido na sala de edição.

O maior exemplar disso, até o momento, era “Os Oito Odiados”, em que o espaço reduzido e os poucos atores em cena quase transformaram o roteiro em um teatro filmado. Longo demais, o filme ganha fôlego no seu ato final, surpreendente e sanguinário como é de se esperar de um mestre na arte de manter as pessoas tensas.

Essa espécie de coroa passa agora para “Era Uma Vez Em… Hollywood”, em que suas quase três horas acabam sendo cansativas demais. Dessa forma, o filme perde em ritmo. A impressão que dá é que Tarantino tem ficado com pena de cortar suas cenas. Por isso, as prolonga até não poder mais. Aqui, ele deixa de “enxugar” pelo menos meia hora de filme para deixá-lo mais ágil e direto. A conhecida verborragia de seus roteiros continuaria intacta, mas menos, digamos, enrolativa.

O que é realmente uma pena quando se constata, ao mesmo tempo, que esse é um dos melhores trabalhos de direção de sua carreira. Tarantino aqui aparece como um mestre exibindo todo o seu conhecimento. Os enquadramentos e a forma com que ele dirige os atores é sempre bom de acompanhar. No entanto, aqui essas qualidades atingem excelência.

 

“Era Uma Vez Em… Hollywood” e suas atuações

RESENHA | "Era Uma Vez em Hollywood" traz o melhor e o pior da filmografia de Tarantino

Por falar nisso, em “Era Uma Vez Em… Hollywood” há uma constelação de astros unidos para dar vida ao roteiro “tarantinesco”, e a maioria deles brilha intensamente com a oportunidade. Um exemplo é Brad Pitt, que dá vida ao dublê/faz-tudo Cliff Booth. Se, por um acaso, o ator não ganhar uma indicação ao Oscar de Coadjuvante na próxima cerimônia, pode se considerar roubado.

Seu papel é levar a trama adiante, orbitando entre os mundos egocêntricos com o qual interage ao longo da trama. Os momentos de maior tensão e catarse estão sob sua responsabilidade, e Pitt dá conta magistralmente. É, sem dúvida, o melhor personagem do filme, e também a melhor atuação. Fica bem claro por que Tarantino o escolheu justo para este papel: lhe caiu como uma luva.

Por outro lado, temos Leonardo DiCaprio, interpretando Rick Dalton, o ator decadente que se recusa a ver que o mundo à sua volta está mudando. Cheio de tiques e manias, a atuação de DiCaprio é excelente na maioria das vezes, o que também o deixa com créditos a uma futura indicação ao prêmio de Melhor Ator. O problema está em um certo “overacting” em cenas de explosão – no caso, explosão emocional do personagem. As várias camadas de tiques, como o pigarro e a voz vacilante acabam dando um tom de caricatura nos momentos em que ele deveria passar mais seriedade.

Por outro lado, o talento cômico do ator se evidencia nas cenas em que ele precisa aparecer. As cenas mais engraçadas do filme estão à cargo de DiCaprio. Não sendo muito conhecido por atuar em comédias, ele se dá bem na tarefa. Algumas cenas ganham contornos de humor, e nesse sentido funcionam muito bem.

 

Colocando tudo na balança

No entanto, se for para colocar as atuações masculinas lado a lado, Pitt leva a melhor. Os dois são excelentes intérpretes, bem como encontram o tom certo para seus papéis. Pitt, no entanto, consegue dar mais camadas ao seu Cliff Booth. Tudo isso acaba eclipsado, porém, com a estonteante direção de arte de “Era Uma Vez Em… Hollywood”.

A reconstrução de Hollywood no fim dos anos 60 é simplesmente magistral, hipnotizante. O filme ganha muitos pontos em não usar efeitos digitais para recriar os cenários. Tudo parece realmente ter sido filmado na épo. ca. Ainda mais quando se conta com uma fotografia belíssima, que ficou a cargo do oscarizado Robert Richardson. As recriações nos figurinos também chamam muito a atenção, e mostra como Tarantino e sua equipe são realmente detalhistas em níveis quase obsessivos.

É uma pena, portanto, que o filme tenha essas pontas fracas. Pretendendo ser uma alegoria do fim do sonho de paz e amor que permeou a década de 60, o longa tem inegáveis qualidades, mas seus defeitos atrapalham o resultado final. O terceiro ato – que é a grande surpresa e deve ser mantido sem spoilers aqui – alavanca o filme a um outro nível; no entanto, não se pode dizer que seja algo que já não tenhamos visto. Na própria filmografia do Tarantino há exemplos, inclusive.

No fim das contas, é preciso equilibrar as coisas. A direção, boa parte das atuações, técnica e trilha sonora dão o ponto positivo a “Era Uma Vez Em… Hollywood”. O roteiro, edição e outra parte das atuações (como a de Margot Robbie, mais presença do que qualquer outra coisa) pendem para o negativo. Colocando tudo na balança, o filme se mostra muito bom, mas não é uma obra-prima na filmografia de um diretor cheio delas.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.