Resenha | O retorno em ótima forma pop de Fernanda Abreu em "Amor Geral" • MAZE // MTV Brasil
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Resenha | O retorno em ótima forma pop de Fernanda Abreu em “Amor Geral”

João Batista2459 views

Há uns dias atrás estreamos aqui no blog nossa nova coluna, a DOSE BR, onde prometemos falar sobre muita música boa made in Brazil que, muitas das vezes, deixamos passar por conta de outras pautas que julgamos ser mais interessantes e relevantes. E parece que foi só essa ideia surgir, que logo em seguida apareceram um tanto de coisa legal pra viciar a gente! Só pra citar alguns exemplos: depois de Tiago Iorc e SILVA reconquistarem a gente no ano passado com seus respectivos Troco Likes e Júpiter, Céu ressurgir sintetizada com Tropix e Criolo voltar à ativa com a versão repaginada e ainda mais incrível do emergente Ainda Há Tempo, tem mais um registro que promete morar em nossas playlists por um bom tempo: Amor Geral, o primeiro disco de inéditas de Fernanda Abreu em dez anos.

Capa do álbum "Amor Geral", de Fernanda Abreu.
Capa do álbum “Amor Geral”, de Fernanda Abreu.

A primeira amostra de Amor Geral apareceu há alguns meses atrás quando Fernanda divulgou o single/clipe de “Outro Sim”, carro-chefe do disco. Minimalista mas de muito bom gosto, a estética do vídeo chamou a atenção pela direção artística de Giovanni Bianco – o ítalo-brasileiro parece ter gostado de pegar no batente por aqui após trabalhar com Anitta em seu Bang. Além do clipe, Giovanni também assinou a capa do single e o encarte do disco.

Mas será que a qualidade iria parar em “Outro Sim”? Não mesmo. Até porque Fernanda Abreu sempre se mostrou empenhada em toda sua discografia, e em Amor Geral isso não foi diferente. Basta ouvir a faixa seguinte, “Tambor”, pra conferir que a brasilidade e espírito de festa de Fernanda continua fervendo na cantora, que é uma das percussoras da inserção do funk carioca na indústria.

“Deliciosamente” faz jus ao seu nome e é introduzida por um delicioso (rs) arranjo de baixo e aos poucos vai se mostrando mais uma parte interessante do álbum com um pezinho da disco music. A temática sexual segue, porém em forma mais desacelerada, em “Saber Chegar”: aqui, os vocais de Fernanda se mostram delicados e serenos, dando espaço para consagrar esta como uma das mais agradáveis canções do disco.

O quesito voz se mantém válido na pessoal e otimista “Antídoto”, que carrega um dos arranjos mais belos de todas as faixas. Em pouco menos de três minutos, a faixa se desenvolve tão bem que quando você já se dá conta, já acabou. O disco segue e a primeira impressão que temos de “O Que Ficou” é de que manteremos a vibe serena, mas o que realmente difere essa de sua antecessora são os modestos vocoders que surgem em momentos estratégicos, o que torna da faixa em uma excelente amostra eletrônica de Amor Geral.

“Num primeiro momento, fiquei um pouco receosa de lançar qualquer trabalho artístico nesse momento em que a intolerância, o cinismo, a falta de escuta parecem imperar. Mas percebi que é exatamente esse o momento propício pra vir com Amor Geral. Então, quando vozes conservadoras gritam contra o aborto, contra o direito das mulheres, contra os negros, contra a diversidade sexual e religiosa, venho chegando, gentilmente, com o meu antídoto.”

Fernanda Abreu em fotos de Gui Paganini e arte do Giovanni Bianco para o disco "Amor Geral".
Fernanda Abreu em fotos de Gui Paganini e arte do Giovanni Bianco para o disco “Amor Geral”.

Até aqui tá tudo muito lindo e tudo muito bom pra quem consome elementos atuais de música pop, mas Fernanda também se preocupou em trazer de volta aquela persona que a consolidou lá nos anos 90 para poder apresentá-la axs novinhxs e enaltecer o motivo pelo qual hoje, em 2016 ao longo de seus 54 anos de muita disposição, ela consegue sustentar sem dificuldades um disco pop: sua atitude. Explanando como temática o poliamor, “Double Love Amor em Dose Dupla” personifica muito bem o perfil musical consagrado de Fernanda sendo outra das que mais se destacam em Amor Geral, que certamente agradará tanto os fãs veteranos pelos característicos vocais gingados de Fernanda, assim como os mais recentes pelo ritmo envolvente de funk-pop.

Seguindo a boa intenção de falar de temas da atualidade, “Por Quem” é uma faixa divertida que fala novamente sobre amor e sentimentos, só que dessa vez sob o ponto de vista da tecnologia e dessa era digital em que vivemos. Com direito à sons de Skype, iMessage e outros apps ao longo da música, Fernanda canta versos bem bolados e cheios de metáforas com proposta similar à de faixas recentemente lançadas por outros colegas, como Tiago Iorc e Céu.

Em sua reta final, Fernanda se entrega de forma mais passional e vulnerável em “Valsa do Desejo”. Salvando seu arranjo, que se divide entre momentos orquestrais e singelas batidas, não chega a ser algo que se destaque muito nessa altura do campeonato, fator que nos estimula facilmente a pular para a próxima e última, “Amor Geral”, que na verdade é um monólogo de Fernanda sobre a sua concepção do que é o amor e sua finalidade nos dias de hoje. Os impactantes últimos versos anunciam o desfecho do álbum de uma forma digna de aplausos.

Não é qualquer um que consegue ficar ausente por tanto tempo e voltar com uma potência tão forte como Fernanda Abreu voltou. Enquanto muitos se preocupam em lançar álbuns e singles incessantemente (talvez com um provável medo de cair no esquecimento), ela se preocupou bastante com a qualidade e o conceito que iria incorporar em seu retorno sem se preocupar com o tempo que isso pudesse te custar – o disco levou quase três anos para ser feito. Abordando acima de tudo o amor, ela soube combinar elementos já presentes de sua carreira com toques mais atuais da cultura pop, seja em sua sonoridade como em sua parte visual, o que resultou em um disco para todos os tipos de público amante do gênero.

Hoje, a eterna Garota Sangue Bom retorna para lembrar que tem lugar reservado e vitalício no hall da música pop brasileira.

João Batista
Dono, idealizador e fundador do labirinto. Genioso, carioca que não sabe sambar e amante da cultura pop desde 1991.