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Resenha | Goldfrapp retorna com o cinemático e surreal “Silver Eye”

Leonardo Drozino1 comment3657 views
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A necessidade de se transformar sempre foi uma constante ao longo da carreira do duo Goldfrapp, formado por Alison Goldfrapp e Will Gregory no começo dos anos 2000. A inovação sempre se encontrou no anseio de seguir uma direção completamente diferente a cada disco, com base na reação quando se encontram com um projeto finalizado. A criatividade sempre veio em um processo natural, onde eles nunca tinham muita clareza de que direção, de fato seguir, mas acabam por perceber com obviedade quando já estão de cabeça na produção.

Desde o lançamento de Felt Mountain, em 2001, a dupla se aventurou por diversos estilos e gêneros musicais, por vezes plugando e desplugando os sintetizadores. Agora em 2017, com Silver Eye – sétimo disco dos dois -, eles voltam com tudo para a pura identidade pelo qual são conhecidos: o bom synthpop.

alison goldfrapp -will gregory
Alison Goldfrapp e Will Gregory.

O disco, no geral, referencia os clássicos Black Cherry de 2003 e Supernature de 2005, que os levaram ao estrelato. Mas o trabalho não é uma mera tentativa de reproduzir os méritos conquistados na época – muito menos fazer novamente um hit. Não há nenhuma nova “Strict Machine” ou “Ooh La La” por aqui. Mesmo o explosivo single e faixa de abertura, “Anymore” e a sua sequência, “Systemagic” se distanciam dos tons e cores que transformam uma melodia cativante em uma real canção pop – este estilo, no qual foi tão bem abraçado em ambos já citados discos.

Ao contrário do trabalho anterior – o quase épico Tales of Us, de 2013 -, Silver Eye é muito mais imediato e consegue se conectar com o ouvinte com muita facilidade. A atmosfera cinemática e os temas surrealistas levam a crer que o disco poderia ser trilha sonora de algum filme de fantasia. O tal “olho de prata”, no caso, é uma metáfora para a lua e o híbrido de várias coisas relacionadas ao antropomorfismo, mitologia e seres místicos – que são os temas recorrentes ao longo das dez canções presentes no tracklist.

O surrealismo do disco não encontra apenas uma narrativa lírica, mas também uma narrativa sonora. O uso de sintetizadores e efeitos nos vocais cria uma atmosfera envolvente em uma espécie de universo particular, onde um mundo novo parece existir e ser guiado pela luz da lua. O retorno dos vocoders na voz de Alison, em “Become The One” foi muito bem vindo e impressionante. A canção, inspirada no documentário sobre crianças transgênero, “My Transgender Summer Camp”, chega ao seu ápice quando os vocais quase que sombrios cantam “se torne aquele que você sabe que é”.  A dupla sempre demonstrou, mesmo que inconscientemente a aversão a rótulos – então não é surpresa que eles encontrem simpatia nas questões de condições de gênero e orientações sexuais, tendo ainda o exemplo da renúncia de Alison a justificar a sua sexualidade em algum padrão.

Algumas baladas como “Faux Suede Drifter” e “Zodiac Black” impressionam e servem como ótima preparação para o tsunami de emoções com “Oceans”. De acordo com Alison Goldfrapp, seu parceiro Will Gregory a questionou se estava a fim de gravar alguns vocais em certa manhã. A artista, estando em um momento ruim e de mau humor, agarrou o microfone e as palavras simplesmente saíram de sua boca. Eles até tentaram regravar os vocais outras vezes, mas nenhum saiu tão intenso quanto o primeiro – que é o que se escuta no glorioso encerramento do disco.

A referência a álbuns anteriores é a primeira coisa que se é notada, mas assim como cada disco ele é cercado de alguma inovação da dupla.  Parecia inevitável relembrar alguns sons já feitos anteriormente, mas para não cair no óbvio pela primeira vez em quase vinte anos, eles contam com o envolvimento direto de outros produtores na realização do disco. Há uma evidente harmonia na colaboração com Leo Abrahams (responsável por trabalhos de Florence and the Machine e Regina Spektor), John Congleton (Amanda Palmer, Blondie, Laurie Anderson, Marilyn Manson) e The Haxan Cloak (que contribuiu recentemente para o álbum Vulnicura, da islandesa Björk).

Um novo olhar e uma nova visão serviram como uma influência direta para se buscar ares frescos e fazer sair o melhor que eles poderiam dar no momento. Pequenas coisas como a mudança na cor do cabelo ou algo mais notável, como a responsabilidade de tirar as fotos da capa e de divulgação do álbum são alguns indícios de que eles não estão no momento da vida em que cogitam encerrar a carreira, e sim, que parecem ainda mais seguros para não se imporem limites para serem criativos.  A música feita pelos dois é apenas um reflexo de quem são: tudo que eles quiserem.

 

Leonardo Drozino
Escritor, redator do MAZE e cupido nas horas vagas.