RESENHA | "Jurassic World: Reino Ameaçado" • MAZE // MTV Brasil
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RESENHA | “Jurassic World: Reino Ameaçado”

Luiz Henrique Oliveira303 views

Quando Michael Crichton escreveu, lá na década de 80, o livro que originou o filme “Jurassic Park – Parque dos Dinossauros” alguns anos mais tarde, nem ele devia imaginar o alcance que sua obra teria. Falecido em outubro de 2008, certamente ele estaria agora, no cinema, assistindo ao novo longa baseado na história que criou com um sorriso enorme: “Jurassic World – Reino Ameaçado” é uma grande homenagem ao livro e ao filme que deu início a essa franquia bilionária no cinema – mas, apesar disso, também consegue sobreviver como filme “independente”, com seu próprio enredo.

O filme anterior que inaugurou o reboot dos dinossauros na tela grande, “Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros” já era uma espécie de reverência ao que Crichton escreveu e Steven Spielberg dirigiu em 1993. Porém, aqui isso fica mais visível: diversas cenas fazem rima visual com os filmes anteriores, e o fato de trazer de volta, mesmo que para uma quase-ponta, o dr. Ian Malcolm, interpretado pelo Jeff Goldblum, dá essa aura meio saudosista. Felizmente, o diretor Juan Antonio Bayona (do excelente “O Impossível“, de 2012) não se resume a apenas prestar homenagens. O filme tem seus méritos próprios.

Uma velha-nova história

O enredo inicialmente é simples: na ilha onde estão os dinossauros, um vulcão se torna ativo e ameaça extingui-los novamente. A pergunta se faz é: deve-se salvar os animais ou deixá-los morrer e serem extintos novamente? Essa questão moral é que norteia os dois personagens principais, Owen (Chris Pratt) e Claire (Bryce Dallas Howard), para que voltem a ilha e, favoráveis à vida dos bichos que são, tentem salvá-los. Mas as coisas não são o que parecem, e como sempre, há alguém com interesses obscuros tentando tirar alguma vantagem da maravilha genética criada no antigo parque.

Se você, que já assistiu aos filmes anteriores da franquia Jurassic Park, reconheceu algumas semelhanças, você está certo. A história é uma releitura do que acontece em basicamente todos os filmes anteriores. Com a adição de um ou outro coadjuvante para dar uma impressão de novidade na história, se já assistiu aos filmes que vieram antes, já sabe como a história vai terminar. O que estraga um pouco a experiência dos veteranos do cinema, pois o longa, a partir da metade da segunda parte, se torna previsível mesmo com as tentativas de surpreender o público, como a história da Maisie (Isabella Sermon), a sobrinha de Benjamin Lockwood (James Cromwell), co-criador do parque.

Porém, o diretor Bayona sabe como manejar o roteiro e dirigir cenas de ação. Há sequências realmente impressionantes em “Reino Ameaçado”, e que ficam ainda mais grandiosas com o uso do 3D. A sensação de urgência e de perigo pula da tela o tempo inteiro, deixando quem assiste na ponta da cadeira — principalmente em algumas sequências envolvendo o verdadeiro astro dessa franquia: o tiranossauro-rex, dinossauro recorrente desde o primeiro filme e que nunca decepciona. Apesar disso, o roteiro parece preguiçoso demais para desenvolver uma história de verdade, e com isso o filme perde muito do fôlego que poderia ter.

Um time de heróis carismáticos e vilões caricatos

Boa parte da força de “Reino Ameaçado” está em seus atores: Chris Pratt é um poço sem fundo de carisma, em qualquer cena que aparece fica fácil comprar a história, o personagem e suas motivações. Não é à toa que ele se tornou um dos mais requisitados profissionais da indústria americana, já que ele engrandece todo filme em que aparece por conta da sua presença despachada, meio irônica e divertida. Bryce Dallas Howard (também conhecida como a filha do Ron Howard, diretor vencedor de Oscar e já veterana em Hollywood), também dá conta de novamente co-estrelar o filme ao lado de Pratt, e ainda usando o polêmico salto (quem viu o primeiro filme vai entender a referência) com graça e esforço nas cenas de ação.

Os elogios às atuações dos heróis não se aplica, ao menos totalmente, aos vilões. Sofrendo com uma certa unidimensionalidade, Rafe Spalls, Toby Jones e Ted Levine fazem o que podem com os personagens que lhe são dados, sendo basicamente releituras de outros vilões da franquia. Isso é fácil de identificar. Spalls, principalmente, é o mais importante dentro da história e o que menos se dá bem interpretando o vilão principal, Eli Mills. Por sorte, o talento dos atores salva o trabalho como um todo, o que prova que ator bom resolve mesmo com um roteiro e um personagem capenga. É uma pena que atores veteranos sensacionais como Geraldine Chaplin ou James Cromwell sejam tão mal aproveitados, com personagens que ou saem de cena de modo estúpido ou simplesmente somem sem deixar vestígios.

Diversão com consciência

“Jurassic World – Reino Ameaçado” provavelmente vai chegar perto do fenômeno que foi o filme anterior da franquia, que chegou a 1 bilhão e meio de dólares em bilheteria mundial. E, estruturalmente, é um filme até melhor: tecnicamente é mais competente, com um diretor de mão firme e produção bem acabada. É um filme divertido, reverente, e carrega não só o carisma dos atores, mas também dos elementos principais: os dinossauros estão cada vez mais realistas, o que faz pensar que os efeitos visuais estão realmente trazendo à vida, nem que seja por um par de horas, esses bichos que já não estão por aqui há milhões de anos. E ainda traz uma questão relevante sobre os destinos da natureza e o quanto nós, como seres humanos, influímos nela.

Por isso, é possível considerar o longa como uma diversão com consciência muito bem vinda. Se todos os blockbusters tivessem essa qualidade e esse esmero com as questões ambientais, estaríamos muito bem. É uma pena que o filme se torne previsível depois de algum tempo de projeção, mas nem isso atrapalha a experiência de ver os dinossauros na tela grande, em todo o seu esplendor.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.