RESENHA | Katy Perry - "Witness" • MAZE // MTV Brasil
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RESENHA | Por muito pouco, Katy Perry se perde na busca por sua “Witness”

Gustavo Mata1 comment895 views

Poucos são os artistas do pop que conseguem se manter firmes e fortes no gênero. É necessário não só perseverança, mas também uma análise fria do mercado e do que o pública quer ou pode querer ouvir.

Nos anos 80, Cindy Lauper bateu de frente com Madonna nas paradas do mundo, mas foi a última quem recebeu o título de rainha do pop. A década de 90 foi de Madonna e, mesmo que atualmente seu desempenho nas paradas seja irrisório, seu legado construído marcou eternamente a música pop.

No fim dos anos 90/início dos anos 2000, Britney Spears batalhou “contra” Christina Aguilera, e Avril Lavigne, entre outras e outros cantores que faziam sucesso naquela época. Chegando na década de 2010, a cantora foi a única da leva que emplacou hits, saiu em turnês lucrativas e manteve seu nome ativo no mercado fonográfico, mesmo entre trancos e barrancos.

De one-hit-wonder à hitmaker do pop

Katy Perry lançou-se no mercado em 2008 e concorreu nas paradas com Beyoncé, Alicia Keys e Rihanna. No mesmo ano, Lady Gaga deslanchou com “The Fame” e Taylor Swift conquistava um público mais amplo com os singles do seu álbum auto-intitulado.

Katy tinha de tudo pra ser uma cantora de um único hit, mas dois anos mais tarde – com a chegada de “Teenage Dream” às paradas e seus cinco singles #1 consecutivos – a cantora marcou seu nome na indústria. Foram 19 semanas no topo da parada de singles da Billboard, sete indicações ao Grammy e uma turnê com quase 50 milhões de dólares arrecadados. Isso tudo não teria acontecido se Katy não tivesse encontrado não só bons produtores, mas também se encontrado pessoal e artisticamente.

A nova Katy Perry

Quase sete anos após esse sucesso, a cantora lançou o seu quarto álbum de estúdio, “Witness” (capa à direita). Com produções de Max Martin, Duke Dumont e Hot Chip, só para citar alguns dos envolvidos, o disco prometia mostrar uma nova faceta de Kat. E talvez tenha sido esse o seu maior problema.

De forma geral, o disco cumpre bem o seu papel na carreira de Katy Perry: é um álbum com potenciais grandes singles, grandes canções e uma dedicação vocal da cantora jamais vista. Se antes a voz de Perry era motivo de piada, “Into Me You See” mostra que ela evoluiu e, assim como em “By The Grace of God” no “Prism”, ela mostrou que basta um piano para que seu talento transborde.

Em “Swish Swish”, a suposta alfinetada para Taylor Swift, Katy nos transporta para os clubes dos anos 90, numa pegada funky-house que não deixa ninguém parado. A batida é perfeita para as pistas, a melodia é pegajosa e pode garantir um bom desempenho nas rádios e a aparição de Nicki Minaj na canção dá outro tom. É divertida e pode, sim, se tornar um grande sucesso, mas tudo depende da maneira como for divulgada – o que pode ser um problema, já que nessa era, a promoção dos singles anda bem confusa e fraca, comparada às maratonas pela televisão de rádio que Katy fez durante a divulgação dos discos anteriores.

A tão sonhada comprovação de maturidade

As referências às décadas passadas no disco são inúmeras, tanto na parte visual quanto a sonoridade do trabalho. A faixa título é a maior prova disso: misturando elementos dos anos 80 e 90 com outros da música pop atual, é um balanço impecável e a melhor escolha para abrir o disco. Mostra a maturidade que Katy tanto almejou transparecer nos últimos tempos, trazendo reflexões de uma mulher vulnerável que busca apenas um companheiro para a sua jornada.

A temática da solidão, a busca por si e problemas sentimentais recheiam quase todas as canções do disco. Na impecável “Déjà Vu”, ela abre o coração sobre sua insatisfação com um relacionamento estagnado, problemático e até mesmo abusivo. “Por que você me mantém no fim de uma corda que continua diminuindo?”, canta a cantora em cima de toques noventistas e com a voz suave, brincando com os tons e timbres.

Outras canções que merecem atenção são “Bigger Than Me” e “Roulette”. A primeira tem uma temática espiritual, assim como os primeiros trabalhos de Katy, com uma atmosfera etérea e uma letra que trata sobre a existência de algo maior dentro da própria cantora. Já a segunda é uma canção digna de Katy Perry: letra concisa, refrão explosivo e pronta para agradar os ouvintes das rádios e os fãs nas baladas. Poderia, sem dúvidas, ter substituído “Chained to the Rhythm” como carro-chefe do disco.

***

Tecnicamente, “Witness” é impecável. As produções são afiadas, a voz de Katy está melhor do que nunca e as letras, que nunca foram o seu forte, melhoraram (mas ainda existem alguns “eu posso ser zen, mas posso ser o furacão” e “o mundo é a sua ostra e eu sou a sua pérola”).

O problema é que álbum é longo demais e se perde no caminho. Canções como “Mind Maze”, “Tsunami” e “Bon Appétit” são boas, mas parecem não pertencer ao mesmo projeto. Faltou coesão e um pouco mais de “simplicidade” na hora de escolher quais músicas fariam sentido dentro do projeto. Na busca por encontrar-se e encontrar um caminho para seguir em seu novo projeto, Katy parece ter se perdido um pouco. Se em “Power” Katy se intitula uma deusa, basta ela aprender com os próprios erros e construir uma verdadeira epopeia divina digna de admiração.

“Witness” não é um disco ruim, mas passa longe de ser o melhor trabalho da sua carreira.

Ouça “Witness”, de Katy Perry, no Spotify:

Gustavo Mata
Aspirante a escritor e amante da cultura pop, viciado em séries, filmes ruins e Britney Spears.
  • HP

    Não citou a melhor música do album: Hey Hey Hey