RESENHA | Apesar de divertido, "Liga da Justiça" evidencia que a DC não aprendeu com os erros • MAZE // MTV Brasil
FilmesGeekPostsResenhas

RESENHA | Apesar de divertido, “Liga da Justiça” evidencia que a DC não aprendeu com os erros

Luiz Henrique Oliveira503 views

Em 2016, a Warner lançou “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”, e todo mundo com boa memória sabe no que deu. As críticas deixaram o estúdio bastante preocupado, e os executivos passaram a tomar mais cuidado com  as adaptações de HQs. E principalmente, pararam de ignorar as críticas de especialistas e do público em geral.

Nessa época, “Esquadrão Suicida” já estava filmado, mas ainda tentavam salvar na sala de edição – e até hoje é a única unanimidade do Universo Cinematográfico da DC: todo mundo acha péssimo.

Depois desse tropeço, veio a ressurreição com o ótimo “Mulher Maravilha”, que colocou Gal Gadot definitivamente no mapa das estrelas em Hollywood.

Bom, disse tudo isso para chegar até o esperado “Liga da Justiça”, que está estreando nesta semana; e, apesar de bons momentos, o longa demonstra que a DC não consegue aprender com seus erros. Infelizmente.

Triunfos individuais

Antes de qualquer coisa, é bom afirmar que “Liga da Justiça” é uma boa diversão. É um filme para passar o tempo, caso não exija muito quando se vai ao cinema. Se é esse o caso, de fato, o filme é bom.

E melhora consideravelmente por conta de seus talentos individuais. Gal Gadot, como Mulher Maravilha nasceu para este papel: é, sem dúvidas, a personagem mais carismática do longa, ao passo em que Jason Momoa como Aquaman e Ezra Miller como Flash não estão tão longe dela. São ótimos atores, com personagens que, separadamente, brilham. O mesmo não se pode dizer de Ben Affleck e Henry Cavill, Batman e Superman respectivamente, que pouco aparecem e quando o fazem, ficam apagados diante do brilho dos outros membros da equipe. Mas falaremos deles mais à frente.

E não, não esquecemos Ray Fisher por acaso. Seu Cyborg possui dois defeitos praticamente mortais: sua “armadura digital” é extremamente falsa – é quase impossível acreditar nela! – e sua atuação é fraca, caricata, sem vida. Mesmo nos momentos em que ele é exigido na luta contra o Lobo da Estepe, é engolido pelos outros.

E falando no vilão do filme, este talvez seja o maior exemplo de desperdício de tempo e dinheiro. O Lobo da Estepe, figura clássica dos quadrinhos, foi totalmente construído de forma digital, usando-se a voz de Ciarán Hinds na dublagem americana. O resultado final é constrangedor, sendo que a boca do personagem mal se casa com a voz que ela emite. Mais uma mostra de que a DC deveria ter observado a concorrência e usado captura de movimento para obter um melhor resultado. Infelizmente, não foi o caso.

Quando o desenvolvimento não desenvolve

O roteiro de “Liga da Justiça” foi escrito por Chris Terrio, e após a saída de Zack Snyder do comando do longa, também teve a colaboração do novo diretor, Joss Whedon. Talvez esse entra e sai de pessoas ocasionou um problema no andamento do filme como história linear, além de alguns momentos que simplesmente não fazem muito sentido: os clichês e as tentativas de emular um humor que já é típico de filmes do gênero, em alguns momentos até consegue empolgar, entretanto, na maioria das vezes causa um riso frouxo na platéia. O desenvolvimento dos heróis como equipe e do vilão como um todo são um imenso problema que simplesmente não é resolvido, o que acaba prejudicando o terceiro ato, quando efetivamente ocorre a batalha que justifica a produção.

Evidentemente, a troca de comando também influenciou nesse problema de ritmo: Snyder, que fez “300”, “Watchmen” e “Homem de Aço”, além do famigerado “Batman vs Superman”, tem um estilo completamente diferente de Whedon, que entre outras coisas dirigiu o primeiro “Os Vingadores”: enquanto um trabalha o lado sombrio da coisa, o outro prefere mais cor, por assim dizer. O resultado dessa bagunça visual fica visível em “Liga da Justiça”, que intercala momentos de luz com outros mergulhados em paletas dessaturadas, complicando o acompanhamento da história.

Essa bagunça no conceito se reflete no resultado final. As visões de Snyder e Whedon não são complementares, mas o segundo se esforça para emular o estilo do primeiro, mas fica claro a diferença. Isso sem contar erros bobos no desenrolar na história de alguns personagens, e os efeitos visuais que deixam a desejar em muitos momentos (mais notadamente, no vilão – como já foi dito – e na boca de Henry Cavill, que ostentava um bigode retirado digitalmente na época das refilmagens e que o deixa seu lábio com a aparência falsa, plástica).

“É a unidade, estúpido!”

James Carville, assessor de Bill Clinton na campanha presidencial de 92, criou a frase “É a economia, estúpido!” como mote para explicar qual era o real problema dos americanos no começo da década, que na época estava dividida entre a vitória na Guerra do Golfo Parafraseando, a questão que pega com “Liga da Justiça” e que deve ser martelada na cabeça dos produtores até o crânio afundar é esta: o problema está na unidade. Apesar de talentos individuais saltarem da tela à olhos vistos, não há no longa uma verdadeira sincronia entre a equipe de super-heróis, e nem mesmo das cenas que nós acompanhamos durante as duas horas de filme. Por exemplo: uma cena de ação é interrompida por uma cena mais intimista, e logo se volta para a ação – isso representa uma falta de coesão, provavelmente por conta das regravações que Joss Whedon fez para melhorar o resultado de Snyder.

Apesar de tudo isso, ainda é possível assistir “Liga da Justiça”, mas como uma diversão de sessão da tarde, e não como um filme para ficar marcado na História. A sensação que fica é que houve um subaproveitamento do enredo, e apesar do longa ser competente em apresentar os personagens principais, simplesmente falta uma amarra que faça a liga (sem trocadilhos) com todas as pontas soltas do roteiro. O elenco coadjuvante de peso (J.K. Simmons, Diane Lane, Amy Adams) é desperdiçado com duas ou três cenas cada um, deixando o holofote todo em uma equipe que claramente não tem tanta química assim. Aquela chama de esperança de que o Universo DC fosse finalmente engatar, que surgiu com o filme-solo da Mulher Maravilha, não se confirmou aqui. Uma pena. Os filmes do Aquaman e do Flash estão à caminho, e podem representar essa melhora tão esperada. Até aqui, fica a impressão de que a DC/Warner não só não aprende com os erros passados, mas tenta renová-los em um erro cada vez maior.

Luiz Henrique Oliveira

Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.