Resenha: "O Regresso" • MAZE
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Resenha: “O Regresso” é a obra-prima que dará o Oscar a Leonardo DiCaprio

Luiz Henrique Oliveira12072 views

Muita gente achou que Alejandro González Inarritú, diretor mexicano radicado nos Estados Unidos, havia chegado em seu auge no ano passado com o maravilhoso Birdman, premiado com os Oscars de Filme, Direção, Roteiro e Fotografia em 2015. A escalada desse realizador primoroso, que fez, entre outros, Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, tem um tema em comum: a vontade de mostrar o ser humano como um bicho irracional, apesar de relativamente sensível aos seus iguais. Nos três longas citados antes, ele fez isso tendo como gênero o drama pesado, envolvente, profundo. Com Birdman, veio a mesma visão através da comédia, do humor negro, da ironia. E agora, com O Regresso, ele mostra o bicho-homem despido de sua humanidade, entregue ao sentimento instintivo de vingança, até as últimas consequências. Para a infelicidade de quem, há um ano, torceu o nariz para as vitorias de Inarritú, ele fez aqui a sua verdadeira obra-prima.

poster-o-regresso-maze-blogHugh Glass é um personagem real, interpretado por Leonardo DiCaprio com uma voracidade absurda e nunca antes vista em seu extenso currículo como ator. Aqui, ele tira toda a aura de moço bonito e elegante, enfia-se debaixo de um casaco de pele e pesada maquiagem e entra pesado na insanidade de seu personagem, que perdeu tudo e foi abandonado pelo seu companheiro de viagem em uma América ainda inóspita. Glass, ferido de quase-morte, consegue sobreviver com a ajuda de nativos, e parte em busca de sua redenção.

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Mas essa redenção vem recheada de brutalidade, de crueza. Nada neste filme é fácil, Inarritú não facilita as coisas. Muita gente reclama da duração (quase três horas!), mas que passam despercebidas para quem entra no filme para acompanhar a solitária jornada de Hugh Glass. DiCaprio, finalmente, ganhará seu Oscar de forma merecida: não tem nada de “conjunto da obra”, pois esse é o papel de sua vida, e é sua interpretação mais consistente, que já se tornou o clássico que encerrará décadas de menes engraçadinhos que zoam com a imagem de perdedor do ator – que nunca foi ruim, apenas azarado.

A fotografia, a cargo de Emmanuel Lubeski (que venceu Oscars por Gravidade e Birdman e é o braço direito do diretor), cria em três cores básicas alguns movimentos de câmera praticamente impossíveis e demonstra com exatidão o clima gelado e inabitável de alguns séculos atrás. E os efeitos visuais são tão realistas que a agora famosa cena do urso é desesperadora. Some isso a uma trilha sonora pontual e uma edição brilhante e temos, em todos os aspectos, que O Regresso é uma obra de arte que merece ser apreciada no cinema, da melhor maneira possível.

As 12 indicações para o prêmio da Academia surpreenderam alguns críticos, mas não o público, que vem dando ótima bilheteria ao longa nos países onde já estreou antes daqui. E todo esse buzz em torno de O Regresso é justificado, pois o longa de Inarritu é uma viagem não só por planícies quase desertas, e não é só sobre um homem que quer vingança: é sobre nós, sobre a nossa condição humana, sobre o peso da vida, sobre a horrível crueldade que temos guardada em nós, apenas esperando uma chance de subir à tona.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.