Resenha: "Os Oito Odiados" • MAZE
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Resenha: Tarantino alcança a maturidade em “Os Oito Odiados”

Luiz Henrique Oliveira1 comment8765 views

É difícil manter a parcialidade quando se trata de Quentin Tarantino. O homem, que desde o início dos anos noventa vem arrastando cada vez mais gente para o cinema com obras icônicas como Pulp Fiction – Tempo de Violência, os dois volumes de Kill Bill e Bastardos Inglórios, tem uma base de fãs tão grande quanto a de detratores, tanto entre o público quanto na crítica cinematográfica. Mas a partir de “Bastardos”, foi praticamente inegável a todos esses grupos reconhecer que a maturidade estava chegando ao sempre pop Tarantino. E, aparentemente, ela atingiu o seu auge em seu novo filme, Os Oito Odiados, que estreia no dia 07 de janeiro. Em comum com toda a sua produção anterior, o oitavo longa do diretor tem apenas o sentimento de que é oito-ou-oitenta: ou se ama intensamente, ou se detesta totalmente.

Um resumo da história: o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell) precisa atravessar o Wyoming levando uma prisioneira chamada Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para que ela seja enforcada na cidade de Red Rock. No caminho, encontra o Major Warren (Samuel L. Jackson) e mais adiante, Chris Mannix (Walton Goggins). Ruth reluta, mas aceita dar carona aos dois, pois uma nevasca se aproxima e não quer perder tempo com discussões. Porém, não conseguindo fugir da tempestade, o grupo procura refúgio no estabelecimento de Minnie (Dana Gourrier). Ela não está, mas há um grupo de homens já refugiados sob a proteção de Bob (Demian Bichir), a quem foi confiada a guarda da pousada na ausência da dona. Eles são Oswaldo Mobray (Tim Roth), Joe Gage (Michael Madsen) e o general Sandy Smithers (Bruce Dern). Na ordem: o carrasco de Red Rock, um vaqueiro e um confederado da Guerra Civil Americana, que acabou há oito anos. Reunido com o grupo na cabana de Minnie e tendo sob sua guarda uma perigosa assassina, John Ruth desconfia que há um plano sendo colocado em prática, e que nenhum deles sobreviverá para ver o dia seguinte.

Os protagonistas de "Os Oito Odiados".
Os protagonistas de “Os Oito Odiados”.
Pôster nacional de "Os Oito Odiados". (Diamond Films/2015)
Pôster nacional de “Os Oito Odiados”. (Diamond Films/2015)

Dividido em cinco partes – uma mania tão conhecida de Tarantino quanto sua verborragia – Os Oito Odiados revela-se seu filme que poderia ter sido uma peça de teatro. Ele mesmo reconheceu isso na coletiva que deu ao promover o filme no Brasil, em novembro, quando comentou sobre o episódio do roteiro vazado do filme. Os personagens que citei acima são os que aparecem no longa, com uma ou outra exceção (!); não há excesso de pessoas na tela. Cada um com seus motivos para estar ali naquela noite, e a grande inteligência do roteiro é fazer com que o espectador saiba, pouco a pouco, que todos naquela cabana podem estar mentindo. A tensão gerada é suficiente para segurar o filme, e os diálogos estão afiados como nunca. É, com certeza, o melhor roteiro já escrito por Quentin Tarantino, no que diz respeito a qualidade das falas e construção da história.

E tecnicamente não fica atrás: a fotografia, feita pelo veterano oscarizado Robert Richardson em 70 mm (formato que não será exibido aqui no Brasil, infelizmente) é hipnotizante, filmando as paisagens geladas de Wyoming com uma beleza que não se via há muito tempo. Uma grandiosidade típica dos filmes de faroeste. Assim como todo o resto de sua competente equipe (de edição, direção de arte, figurinos) caprichou no trabalho e não há qualquer dúvida de que esse esforço vai gerar prêmios na próxima temporada. Mas, se tem que destacar algumas coisas sobre outras, é melhor dar atenção a trilha do grande Ennio Morricone, que do alto dos seus 87 anos ainda compõe trilhas de faroeste com a mesma qualidade de 50 anos atrás (para quem não sabe, quase todas as trilhas desse gênero nos filmes antigos são dele). E fica difícil destacar alguém do elenco, visto que todos estão tão fenomenais que seria injusto apontar um ou outro. Diante do fato que é impossível indicar um elenco inteiro para o Oscar – somente no prêmio do sindicato dos atores isso poderia ter acontecido, mas por motivos desconhecidos isso não ocorreu – é consenso que Jennifer Jason Leigh, interpretando o papel mais ousado da sua carreira, desponta como séria candidata. Sendo maníaca, ousada e irônica na medida certa, Leigh segura com maestria o único papel feminino de destaque do filme. Para os homens, a dúvida fica entre saber se Samuel L. Jackson ou Kurt Russell serão a “bola da vez” nas apostas. Há alguma vantagem para Russell: sua carreira renasce interpretando um homem que precisa ser cruel, mas que demonstra afeto, humor e compaixão em pequenos gestos. A sabedoria de sua interpretação está nesses momentos que quase ninguém nota, mas que humanizam e trazem a personagem para mais perto do coração do público.

Sem deixar de lado seu consagrado estilo, com sangue, violência e grande dose de ironia, Tarantino demonstra em Os Oito Odiados que cresceu como autor. E justamente por isso seu filme pode cansar os mais desavisados: quem espera pela agilidade de filmes anteriores vai ter um choque com estilo teatral, visto que quase todo o filme se passa em um cenário apenas, lembrando 12 Homens e uma Sentença, clássico de Sidney Lumet feito na década de 50. Portanto, não é um filme fácil. É baseado na tensão entre personagens e suas histórias, verdadeiras ou falsas, e que surpreendentemente carrega uma mensagem cifrada sobre racismo, herança de seu filme anterior, Django Livre. Tarantino está em sua melhor forma, com total controle da narrativa. E isso é ótimo para nós, espectadores, pois a qualidade do longa é de encher os olhos e nos faz ter a certeza de que sim, esse sujeito aparentemente comum que saiu de uma locadora para fazer filmes está com seus dois pés fincados nas melhores páginas da história da cultura pop do nosso tempo.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.