Resenha: "Reza a Lenda" • MAZE
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Resenha: Apesar de problemático, “Reza a Lenda” é o passo definitivo do cinema de ação brasileiro

Luiz Henrique Oliveira5504 views

A melhor palavra para definir Reza a Lenda, filme que está para estrear nos cinemas do país, é: corajoso. Não só pela sua execução e por ter um time de atores competentes que em sua maioria compraram o drama dos personagens e entraram em suas peles, mas pela atitude em realizar, no Brasil, um filme de ação que mistura diversas referências do universo popular do cinema com as crendices e misticismos típicos de nosso país.

poster-reza-a-lenda-maze-blogQuando o cineasta Homero Olivetto mostrou trechos de seu filme na última Comic Con, deixou todos os presentes curiosos com o resultado final. Os sete primeiros minutos do longa mostrados naquele evento deixaram claro que não era apenas uma tentativa de emular Mad Max: havia algo ali uma tentativa de sair da mera cópia, que poderia se aproveitar do hype da quarta aventura dirigida por George Miller. Ao assisti-lo completo, a sensação que se dá é que Olivetto tem muito futuro como realizador – é um nome para se prestar atenção daqui em diante, apesar de alguns vícios típicos em diretores iniciantes, como a falta de ritmo em algumas cenas, um roteiro esquemático e por não saber onde colocar direito a trilha sonora. Porém, Reza a Lenda já pode figurar como um pequeno marco na cinematografia brasileira, por sua audácia no tema e por sua técnica apurada, mesmo que não seja um sucesso nas bilheterias.

Não se pode falar muito sobre o plot, a trama: o básico que se precisa saber é que a gangue de motoqueiros liderados por um sujeito chamado Ara batalha a posse de uma santa roubada no deserto (sertão?) por um homem chamado Tenório (papel de Humberto Martins). Enquanto isso, por conta de uma série de acontecimentos, uma moça (interpretada por Luisa Arraes) acaba tendo de conviver com Ara e sua tropa, da qual faz parte uma outra mulher, namorada do líder, chamada Severina (a melhor do filme, Sophie Charlotte).

Cauã Reymond, que além de atuar também produziu o filme, merece os créditos pela aposta arriscada. Sua interpretação pode soar irritante às vezes, como na maioria de seus personagens na televisão, mas é impossível se sentir indiferente a Ara, seu personagem. O ponto que realmente dá um certo cansaço são as personagens femininas que, ao contrário do que se discute no cinema atual, são fracas, passivas e, de certa forma, clichês. Assim como o roteiro, que apesar das referências muito bem expostas e misturadas ao imaginário religioso do nordeste brasileiro, peca no excesso de falas em lugares-comuns, batidas mesmo. O que é uma pena, pois se fosse melhor trabalhado certamente seria um filme imbatível.

Mas o que vale é a intenção. Visualmente impressionante, com forte fotografia e efeitos visuais realistas, Reza a Lenda abre a porta para filmes de ação realizados aqui – um nicho tão pouco explorado e no qual os cineastas brasileiros podem ainda contribuir muito. É um primeiro passo, bem dado apesar dos desacertos no caminho.

Luiz Henrique Oliveira
Nasceu no interior de São Paulo em 1986 e escreve sobre cinema em blogs desde 2004. Curte drama, comédia e ficção científica, mas ama mesmo O Poderoso Chefão. Tem interesse no mundo geek, em música brasileira e pode ser facilmente confundido com o Chico Bento pelas ruas da capital paulista.