RESENHA | A reinvenção bem dosada de Tiê no álbum "Gaya" • MAZE // MTV Brasil
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RESENHA | A reinvenção bem dosada de Tiê no álbum “Gaya”

João Batista875 views

Na estrada desde o finalzinho da década passada, Tiê conquistou grande notoriedade após o lançamento do disco “Esmeraldas”, de 2014. O motivo? “A Noite” se tornou um sucesso arrebatador após se popularizar por fazer parte da trilha sonora da novela “I Love Paraisópolis”, da Rede Globo, um ano após o lançamento do disco. E de lá pra cá, a carreira da moça só tem sido uma montanha russa que só vai pra cima. Anos se passaram, ela não deixou de fazer seus shows e criar suas músicas, e paralelamente a isso a sua popularidade só cresceu.

Corta pra 2017. No começo desse ano, ela soltou o single “Mexeu Comigo”, e com isso veio o sinal de que ela estava prestes a lançar coisa nova. Na época do lançamento, rolou até um post aqui no blog pra divulgar e enaltecer a belíssima obra. Alguns meses se passaram e ela lançou “Amuleto”, mais uma inédita até então. E não demorou muito depois disso pra ela anunciar “Gaya”, seu novo álbum de inéditas que foi lançado hoje (27).

Quem gostou de “Esmeraldas”, vai amar “Gaya”. E quem nunca foi muito fã do som da artista, certamente conseguirá dar uma segunda chance após ouvir o álbum. Nele, ela permitiu se reinventar na medida certa e trouxe uma roupagem mais pop pra identidade do seu som, sem corromper a sua identidade. As músicas se jogam de cabeça em vários elementos radiofônicos e prende o ouvinte do início ao fim, numa coerência louvável e uma produção minuciosamente bem trabalhada. Sem deixar de ser biográfica, Tiê nos convida para um mundo intenso de sentimentos entre melodias suaves e uma produção impecável.

Explorando sentimentos intensos como julgamento, culpa e desamor, Tiê assina todas as faixas do disco (exceto “Amuleto”), que mostra uma artista mais versátil, sem medo de arriscar novas sonoridades e dividir os vocais com outros artistas. Em “Duvido”, ela arranha um popnejo gostosinho com Luan Santana enquanto suas filhas Liz e Amora roubam a cena em “Pra Amora”, que bebe da fonte dream-pop dos anos 90; na última faixa do disco, “Vida”, ela traz Felipe Catto e As Bahias da Cozinha Mineira para uma belíssima homenagem à sua avó – a atriz Vida Alves, protagonista do primeiro beijo da TV brasileira.

Aliás, foi a partir do falecimento de Vida, no começo desse ano, que Tiê começou a aparar as arestas do conceito do disco, que já vinha sido gravado e idealizado desde o meio do ano passado. A canção cumpre seu papel como tributo à sua avó de uma forma poética e sem melodramas, mas que pode até mesmo catalisar diferentes interpretações.

Mas o disco também mira em sentimentos otimistas. As idas e vindas do amor, claro, estão sempre ali como pano de fundo, mas alguns versos de “Gaya” também passeiam por esperança (“Pra Amora”), paixão (“Me Faz”) e autoconhecimento (“O Mar Me Diz”).

E apesar de algumas canções serem centradas nas suas experiências, Tiê teve uma carinho especial ao fazer com que todas as músicas soassem biográficas sem se deixar cair numa egotrip – algo que demanda muito de qualquer pessoa, tendo em vista que é muito difícil descrever o que se sente de uma forma que outra pessoa consiga interpretar e até mesmo se identificar. Desse jeito, ela se aproxima ainda mais do ouvinte e o convida para fazer parte do universo empático e dançante dos seus sentimentos.

Ouça o álbum “Gaya”, da Tiê, no Spotify:

João Batista
Dono, idealizador e fundador do labirinto. Genioso, carioca que não sabe sambar e amante da cultura pop desde 1991.